segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Acaso

Hoje conheci um velho amigo.

Não, não existe nenhum erro na frase acima. Foi exatamente o que quis dizer. Talvez a interpretação demore a vir corretamente, então dê-me a chance de esclarecer meus pensamentos; tenho essa mania de falar – ou melhor, escrever – como se o que estivesse cravado em meu íntimo fosse também exposto para os demais. Na verdade, o reconheci. Raras são as ocasiões em que as pessoas relacionam-se com outras, de carne, osso e coração – normalmente, interagimos com projeções, produtos perfeitos de nossa imaginação fantasiosa. Dessa forma, evoluímos um quadro de afeição para amor em segundos; certo alguém é tão alegre, vivo e espirituoso! Parece absurdo que tenha demorado tanto para encontra-lo. Alguém tão milimetricamente desenvolvido para mim. Com todas minhas mínimas exigências e desejos atendidos. Até as imperfeições feitas sob medida; a risada rouca e o humor ácido. Aquilo que vai me tirar do sério e trazer a loucura necessária – o descanso do perfeito. Todos precisamos de alguém para nos enlouquecer. Esqueça o sexo, a língua e a tradição - só duas coisas nesse mundo são capazes de nos igualar: o amor e a loucura. O que é quase um pleonasmo.

Voltamos a minha mais recente descoberta. Meu querido desconhecido. De longa data.

Tenho essa estranha mania, quase uma síndrome, de explicar-me para estranhos. Bem, talvez nem tanto, talvez – num mundo no qual as coisas façam sentido e eu não seja apenas mais uma alma atormentada que sente saudade sabe-se lá do quê e lancha aspirina – eu apenas soubesse que ele não era apenas um qualquer que eu conheci num café, mesmo que fosse. Droga, isso soa brega. Pulando o momento constrangedor no qual confundo um simples encontro casual com algum evento cósmico e sobrenatural (ou pior ainda, uma ocasião escrita por alguma entidade espiritual – isso porque não consigo ser mesquinha o suficiente para acreditar que Deus estivesse desperdiçando seus divinos segundos preciosos com minhas besteiras mundanas), o fato é que em um momento estava perguntando se aquele era um livro de Anne Rice e no momento seguinte estávamos discutindo sobre as concepções do mundo moderno. E aquilo parecia fantasticamente certo. Como deve parecer.

Talvez devesse ser assim. A sutil diferença de ler uma coisa nos livros, vê-la nos filmes e de fato vivenciá-la. Refiro-me à inconsistência – não aquela que simula a admiração, mas aquela que avassala o sentir. Não quero uma alusão à ilusão dos que acreditam em momentos e corações destinados, mas vai um aviso aos desencontrados: o que tem que surgir, surge.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Diamante

Escrevi alguns versos tortos pensando bastar para que você retorne. O peso de algumas palavras não ditas surtia efeito; precisava dizer que sentia falta. Precisava dizer que gostava. O quanto gostava. Das conversas, da paz que me traz, do modo como seu sorriso imobiliza e derrete até os corações mais frígidos. Apenas dizer que te tinha apreço - pode ser por mais um dia, um mês, um ano ou várias vidas. Já sei que me dôo demais e dôo por dentro; aceito o fim só por hoje. Ou partir de hoje. O tormento que me causava sempre foi como apnéia - tira o sossego, a calma e a respiração. Lidei com duas faces: só o tinha em minha ausência e só me achava em sua presença. Sendo assim, chamei-o diamante - cegou-me os olhos e tornou-se foco - fez com que se tornasse belo, nosso, tornou-se assim nosso elo. Diamante que é a pedra mais dura e resistente, e deriva do grego "inconquistável". Era você, fixo em seu pedestal, três andares acima de mim. Hoje vejo que essa suposta superioridade ruiu, como roda-viva. Inteira, vejo com mais clareza. Não foi a recusa do convívio que me trouxe paz; meus valores, mesmo quando colocados contra os seus, se situavam também a partir deles. Não, foi algo a mais. Foi amor próprio. E agora você me chama. Já tracei um novo caminho, vejo a estupidez de retornar alguns passos. Uma vez experimentada, essa liberdade me ganhou... Só não entendo o porquê do só me querer tão só. Posso ser mais minha?

Como disse, "não imagine que te quero mal. Apenas não te quero mais."

sábado, 22 de outubro de 2011

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Arde, mas não queima.
Você quer sumir, fugir. Desaparecer por uns instantes. Habitar qualquer corpo que não seja o seu. Porque ser você naquele momento dói, e pedir para que continue vivendo parece exigir demais. Você reza para fechar os olhos e calar a mente.
Mas não consegue silenciar o coração; esse grita. Você trava uma batalha instintiva entre o racional e o emocional. Espera uma atitude heróica, mas ao mesmo tempo sabe que ela não virá.
Quer arrancar a pele, desconectar os pensamentos. Quer coisas demais. Nem sabe mais o que quer.
Tenta convencer-se que pode viver muito bem sem aquele amor. Que agora é mais feliz. Que encontrou a sua paz. Internamente, o peito esbraveja o contrário.
Não se engane, meu caro. Isso é ciúme.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Nesses dias amenos que a gente se sente pequena. Um ponto meio sem rumo, sem direção certa a seguir. Cada vez mais interrogações, cada vez menos tentativas. Não encontro dentro de mim meu complemento, o instrumento adequado para calar as dúvidas. A alma está no corpo como um cárcere; não são mais partes de um quebra-cabeça.

Busco não uma cura, mas um alívio - um pouco de saúde. Ouvir as palavras certas - vindas de qualquer direção - é um descanso. Da mesma forma que a permissividade cultua vícios, a negação e o isolamento nos tornam menos humanos. O silêncio anda é uma forma de comunicação.

Tenho essa necessidade de conhecer cada ínfimo centímetro do outro, talvez na tentativa de me conhecer juntamente. Sou uma deficiente de coração, desconhecedora da minha própria alma. Da mesma forma, acredito que pessoas não estão terminadas como um livro - moldam-se, modificam, ganham novos cheiros e roteiros. Unir alguém e um destino imutável é uma ação extrínseca, até violenta. E quando encontramos quem compreenda essa metamorfose, rejeitamos. Por pura ignorância. Somos ensinados a subestimar quem entende. Desconfiamos. Também somos doutrinados para apreciar o que apresenta dificuldade, o que requer sacrifício; se algo de fato vale a pena, deve ser quase inalcançável. Tendemos a desvalorizar o que não está num pedestal distante.

No entanto, acredito que aquilo que surge sem explicação guarda em si o que há de mais interessante. Até hoje, tudo que vi ou vivi fruto de expectativas baseadas no dever-ser não renderam grandes finais. Por outro lado, das coisas mais bobas e inesperadas surgiram grandes rotas. E o que há nesse mundo mais bonito do que simplicidade?

Não consigo me lembrar de nada.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Tempo Perdido

Eu soube, naquele momento. Não tinha me enganado. A lembrança mais doce tornou-se também a mais triste. Agora já não existe mais razão, orgulho ou outra emoção racionalizada: sou toda coração. A metade de mim que era silêncio desintegrou-se quando me entreguei - e por essa redenção, passei a colecionar anseios e momentos.

Alguns demônios foram despertados dentro de mim - não se engane, todos temos - e eles sufocaram minhas reações por tempo demais. Não arrisco dizer ter a receita da cura, mas ao menos tenho encontrado quem é de bem, e cultiva um pouco de conforto pra calar o desespero.

Estou lendo antigos textos, ouvindo discos que já nem lembrava, tirando os álbuns velhos da estante. Tudo isso na esperança de recordar a vida que tive antes dessa bola de neve. Toda uma vida, antes de você. Adquiri você como vício, por escolha própria. Quero riscar no meu calendário os dias que passei em abstinência. Abstinência de você. Assumindo minha atonia. Não enxergo mais o propósito.

Hoje não queria pensar assim. Não vou. Quero dar um tempo dessa coisa chata de ser madura, que consome todo o meu tempo. Prefiro fazer história. Eu quero seu silêncio. Contraditório, não? Sempre lamentei seus dias monossilábicos. Mas hoje existem tantas outras linguaguens para fazermos uso. Hoje pra mim é carnaval. Quero desfilar a vida.

Ainda tem espaço - na casa, no coração. O tempo não me faz esquecer nada; só tira o inesquecível do foco. E quando eu lembro das palavras ditas, das não ditas, e algumas memórias em particular que vinculo à sentimentos reclusos, me dá uma saudade irracional de você.

Todas as formas de controle só trazem um amor vazio. Então não se surpreenda com um telefonema. Amanhã desperdiçaremos horas lamentando como fomos impulsivos. Mas hoje, só quero dançar com você.

sábado, 17 de setembro de 2011

Infortúnio.

E assim teve o início de um ciclo de sucessivos encontros desencontrados. Nunca abriram mão do lado seguro da calçada, nunca arriscaram alguns passos para longe do terreno conhecido. Mal se olharam, jamais se falaram; pareciam tão íntimos, porém. Simetricamente compatíveis. Completavam frases silenciosas. Partilhavam dos mesmos pensamentos, gostos e gestos. Reconheciam-se em frases musicadas.

No entanto, tentar parecia exigir demais. Era preciso coragem, tempo e paciência que não despunham. Desprender tanto em nome do incerto. Sem garantias ou falsas promessas. Ela sucumbia por tão pouco ao se sentir vulnerável, ignorada. Ele desconhecia o quão controverso era em suas ações, ignorante. Não existia em parte alguma um roteiro a ser seguido. Era um dia de cada vez, aliciando os maiores desejos nesse redemoinho de sensações. O que havia de mais tentador, e havia demais. Existiam outras tantas verdades presas em seu interior - e reter tudo dentro de si já não era eficaz, mas outra solução não era apresentada. E aí vinham de todos os lados, de ponta a ponta, doses de profunda dor. O coração era taquicárdico, o estômago despencava aos montes, as palavras surgiam mas a língua era áspera. Ela estava decidida: se dentro dela não mais cabe, acabe. Ele estava temeroso, como tantos tontos que não sabem lidar com o que lhes é ofertado.

Antes que se tornasse um estranho aos seus próprios olhos, surgiu o princípio da desistência. E quem ele conhece passou a ser quem ele conhecia. Num rodapé, as palavras brilhavam contra a luz: ''quem é você que me esqueceu, cadê você que eu não esqueço...''.

domingo, 4 de setembro de 2011

Je ne regrette rien

Honestamente? Sigo nessa droga de estrada.

Se voltasse um dia no tempo, poderia me escutar repetindo culposamente, esbravejando para o mundo o quanto odeio me sentir dessa forma. Algo aconteceu hoje. Nas últimas 24 horas passei a gostar de mim assim. Pelo simples fato de estar disposta a esvaziar a casa, libertar cada cômodo, arejar um pouco. Recuar alguns passos pode ser um ato de coragem, em certos casos. Acho que me encaixo num deles. Aposto na necessidade latente de amarmos a nós mesmos com mais afinco. As pessoas confundem amor próprio com egocentrismo, e este é um erro lamentável. Devemos nos amar. Não o tipo de amor que exulta o alter ego, mas aquele amor que alimenta a ambição, o "querer mais" pelo simples e inegável fato de que merecemos isso. Quem está há muito tempo habituado à sua pr;pria imagem - mesmo que insatisfatória - acaba por esquecer o olhar dos outros sobre si. É uma obviedade que caracteriza um estado patológico.

Mascaramos todos os dias mil verdades íntimas. Esquecemos de buscar dentro de nós a cisão entre essência e existência. Esse dualismo mente-corpo pode se absurdamente confuso para uma mente pouco estruturada.

É evidente que algo ficará. Resquícios sempre ficam, não há esforço capaz de apagá-los. Não vou removê-los, no entanto não mais me arrisco a remoê-los; pertencem à memória, e serão palco para novos acasos. Vou colecionar finais. Vou perpetuar nessa roda-gigante, e isso me levará além. Pode ser que não exista nada a me acrescentar, mas igualmente nada será capaz de me diminuir.

Talvez por isso esteja profundamente viciada em pessoas perdidas. O ser humano sempre busca repouso em seus similares.