Sempre invejei aqueles que conseguem expor suas verdades. Não precisam necessariamente ser donos da razão, mas persistem até o fim em nome do que acreditam. É preciso ter muita coragem para admitir aos olhos de quem quer que seja aquilo que intimamente apostamos nossas fichas e sonhos. E é necessário ainda mais coragem para enxergarmos em nós mesmos o que de fato sentimos.
Não seria assim, se pudesse optar. Não sei em que momento da construção da minha personalidade me tornei tão... Desapegada, fria. Amarga, até. Há quem diga que desse modo desviamos do sofrimento da árdua tarefa que é viver. Só que aprendi com o tempo que isso não é de fato viver, plenamente.
Então me protejo, instintivamente. Não corro riscos, não quero sentir o gosto da decepção, não quero sobre mim esse peso. Tudo corria bem, até o momento em que eu era o comando central, acima de sensações passageiras. Isso foi antes da barreira quântica e invisível que não consigo mais atravessar, fisicamente, até. Antes eu era frívola como Dixie Beggs, sagaz como uma Getty e dominadora como Jacq Onassis. Era mil personagens, sempre fui, desde criança. Costumava me confundir diante da minha própria imagem no espelho, hábito que conservo através do tempo. Talvez tenha recolhido retalhos de outros durante minha passagem pela vida: gestos, falas, trejeitos, sorrisos. Possivelmente sou uma grande colagem de vários ícones que deixaram marcas.
Quero ter a mim mesma sempre completa; já vi tantos fatiados em pedaços antes e não almejo ocupar esse lugar. Da mesma forma, quero alguém por inteiro. Pode soar egoísta, mas não quero - nem vou - lidar com pessoas pela metade. Não quero a obrigação de ser a cura para feridas provocadas por outros. Não quero levantar ninguém, nem ajoelhar-me para estar na mesma página que uma alma presa ao passado. Tantas outras coisas ponho-me a disposição para oferecer: afeto, paz e até cuidado. Mas para isso, preciso que exista vontade, em infinitas doses. De deixar pra trás, de seguir adiante, de abrir mão do que já foi em nome do que pode ser.
É fim de tarde e sabe, eu estava aqui. Estive aqui por tempo demais. Ofereci mais do que podia, beirei a loucura e a sanidade tantas vezes, alternando extremos como um pêndulo. Rendi-me, e peguei firme a sua mão. E senti aquela ridícula sensação de êxtase instantâneo, e implorei para que sentisse o mesmo. Projetos de ilusão, que amadureceriam, criariam raízes e me transformariam num fantoche abandonado na cômoda. Assumo minha fraqueza... Não sei admitir o que penso, e ainda mais o que sinto. É preciso tatear dentro de mim em busca de respostas. No entanto, seguem as instruções: se eu significo algo, então procure meios de me achar... Ou me calar. Seja aquele que girará meus ombros na direção certa. Quero que me guie. Não para frente, mas ao seu encontro.
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
domingo, 21 de agosto de 2011
Costume
A gente se acostuma cedo demais. Nascemos com incontáveis afirmações impostas como verdades, e perdemos nossa capacidade crítica. Funcionamos como enormes esponjas, absorvendo tantos pré-conceitos e ideologias baseadas em fundamento algum.
E tarde demais percebemos o quanto existem pessoas que se escondem por trás desses preceitos, e usam mentiras como escudos. E justificam suas faltas protegidos por falsos ideais. Tem quem diga que a hipocrisia é inerente ao comportamento humano; eu acredito que seja o egoísmo. São raras as pessoas que verdadeiramente abdicam do seu bem-estar próprio em benefício de alguém que amam. Ainda mais raras são aquelas que abrem mão de algo em favor de um desconhecido. Não me isento dessa culpa. Tampouco acredito que esses desvios de caráter sejam obrigatórios na categoria humana. Acredito ser essa mais uma mentira facilmente levada à aceitação para amenizar os erros de cada um de nós.
Não alimento discursos enfadonhos, disfarço com meus vícios. Mas tenho preocupação obsessiva com culpa. E atribuir culpa a alguém pode levar a um julgamento impensado. Dessa forma, distribuo a culpa entre muitos, incluindo a mim mesma. Assim podemos todos viver em sintonia partilhando as mesmas atitudes hipócritas.
E tarde demais percebemos o quanto existem pessoas que se escondem por trás desses preceitos, e usam mentiras como escudos. E justificam suas faltas protegidos por falsos ideais. Tem quem diga que a hipocrisia é inerente ao comportamento humano; eu acredito que seja o egoísmo. São raras as pessoas que verdadeiramente abdicam do seu bem-estar próprio em benefício de alguém que amam. Ainda mais raras são aquelas que abrem mão de algo em favor de um desconhecido. Não me isento dessa culpa. Tampouco acredito que esses desvios de caráter sejam obrigatórios na categoria humana. Acredito ser essa mais uma mentira facilmente levada à aceitação para amenizar os erros de cada um de nós.
Não alimento discursos enfadonhos, disfarço com meus vícios. Mas tenho preocupação obsessiva com culpa. E atribuir culpa a alguém pode levar a um julgamento impensado. Dessa forma, distribuo a culpa entre muitos, incluindo a mim mesma. Assim podemos todos viver em sintonia partilhando as mesmas atitudes hipócritas.
sábado, 13 de agosto de 2011
Até em sonhos
Não costumava acreditar muito nisso, mas sofrimento de fato é opcional.
Fomos presenteados com a capacidade incrível de desviar nossos pensamentos para territórios seguros. O único problema é que em certas situações, queremos remoer o passado sucessivamente. E esse masoquismo se deve porque, às vezes, o que nos resta para manter vivo algo que um dia nos fez bem é alimentar as memórias que permaneceram na periferia de nossas mentes, mesmo quando elas não são lá muito benéficas.
E dá aquela vontade de dirigir a noite toda. Como curar ressaca com música alta. Você quer desconectar os pensamentos, mas não é apto. Você se pega rindo ou chorando, ou possivelmente rindo e chorando. É como colocar tudo o que sente num liquidificador, sem nunca saber o que poderá sair.
Então, vai um conselho: vá para baixo, o mais distante que pode chegar da sua cidade. Chegue a lugar nenhum. Se sinta fora do tempo por alguns segundos, e se permita. Não escute as críticas daqueles que nunca partilharam da mesma perda. Eles não viveram um dia a maneira como você vive seus últimos dias.
Não se importe com algumas palavras. Palavras têm um efeito muito maior do que aparentam. Mas mesmo que ele diga que vai ficar, ele já terá ido. Porque às vezes sentimos falta do que as pessoas eram, e odiamos o que se tornaram. Na verdade, odiamos no que nos tornaram.
Fomos presenteados com a capacidade incrível de desviar nossos pensamentos para territórios seguros. O único problema é que em certas situações, queremos remoer o passado sucessivamente. E esse masoquismo se deve porque, às vezes, o que nos resta para manter vivo algo que um dia nos fez bem é alimentar as memórias que permaneceram na periferia de nossas mentes, mesmo quando elas não são lá muito benéficas.
E dá aquela vontade de dirigir a noite toda. Como curar ressaca com música alta. Você quer desconectar os pensamentos, mas não é apto. Você se pega rindo ou chorando, ou possivelmente rindo e chorando. É como colocar tudo o que sente num liquidificador, sem nunca saber o que poderá sair.
Então, vai um conselho: vá para baixo, o mais distante que pode chegar da sua cidade. Chegue a lugar nenhum. Se sinta fora do tempo por alguns segundos, e se permita. Não escute as críticas daqueles que nunca partilharam da mesma perda. Eles não viveram um dia a maneira como você vive seus últimos dias.
Não se importe com algumas palavras. Palavras têm um efeito muito maior do que aparentam. Mas mesmo que ele diga que vai ficar, ele já terá ido. Porque às vezes sentimos falta do que as pessoas eram, e odiamos o que se tornaram. Na verdade, odiamos no que nos tornaram.
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