sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Um

E lá estava eu. Parada, olhando pra você. Naqueles segundos que antecederam o que seria o início de uma história. De uma nova vida. Completamente parada, olhando pra você. Tantos foram os nós atados naquele início de setembro. Nós que permearam nos meses que se sucederam, todos os nossos encontros desencontrados, todas as noites em que o casaco rosa te esperava ansiosamente pra desfrutar do vazio da tua companhia. Todo tempo passando o tempo. Sabe o que é muito triste? Aquele seu primeiro bilhete ter perdido o seu perfume... Ainda bem que as coisas não perdem o significado nunca. Então naquela noite na qual dez decisões moldaram nossas vidas eu soube que nada mais seria igual, enquanto o destino debochava de nós. O erro intensificava nossos atos, uma justificativa torta dos nossos sinuosos tropeços, injúria mascarada. Como já conhecemos, a partir disso o futuro já não era mais como era antigamente. O rádio falava por nós e a certeza me invadia não só cada vez maior, mas cada vez mais diferente. Fevereiro varreu algumas dúvidas e dívidas passadas. Meu coração estava na minha boca, mas as palavras não encontravam seu caminho. E o medo deu espaço ao que sentia há tanto, deu voz ao meu desejo e vez ao sentimento. E tudo o que escrevíamos a partir daquela tarde de cinzas confirmava a certeza que intimamente sempre tive e se transformava no que há de mais puro e bonito. E com teu sorriso enlaçava meu peito, coberto de sonhos. Em tua presença sentimentos se fundiam, uns já expostos, outros há muito escondidos e por ti revelados. Já não existia certeza maior. Havia tanta vida em mim e pretendíamos ir em busca de mais. E agora sei que vou continuar a encher esse teu rosto de lembranças. Parece outra vida, mas passaram-se alguns meses. Em dias assim que a saudade aumenta três vezes. Saudade porque tudo que vejo me dá uma vontade irracional de você. Tenho inveja de quem te tem por tempo demais. Queria te ter mais. Por enquanto quero que te contente e te conforte saber que existe alguém nesse mundo que acorda e dorme feliz só de saber que você existe. E sei que sou mais na tua presença, que meu corpo só atende quando meu nome é pronunciado pela tua boca. Percebo o toque, estando aí a sensibilidade. Percebo a beleza, estando aí a graça. Percebo você, estando aí todo o conjunto de coisas bonitas que possa existir. Odeio despertar sentimentos ruins, mas a verdade é que todos deviam me invejar pelo tanto que ganho sem nem saber se mereço. Obrigada pelas tantas palavras, pela tanta sinceridade, pelos tantos momentos e pelo tanto sentimento despertado. Isso tudo que trouxe à tona esse tanto amor. Para aquele mesmo destinatário.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Chuva salgada

Eu tenho um segredo, talvez queira te falar. Dividir com você. Atrasei o relógio umas horas, não faz mal. Só quero segurar do meu lado aquilo que julgo ser efêmero. É tão frágil ser amigo. Por vezes ser constante sem ser importuno, ser distante sem ser ausente. Ser presente. Ser passado também. E ajudar a edificar o futuro. Um amigo que me complete com o que não possuo e aceite o que ofereço – uma cabeça preocupada e uns sorrisos e abraços para confortar. Não vou me incomodar se for figurante da sua história, não precisa nem conceder um grande espaço na memória se eu permanecer no coração.

Pessoas são como diferentes idiomas. Cada uma tem sua singularidade, seus sons diferentes, sua particularidade. Certas vezes, essas pessoas tem a sorte de encontrar alguém que acrescente algo novo ao seu vocabulário, tornando do encontro de línguas distintas e formação de uma nova, mais completa.

Alguns dizem que os sentimentos fortes rejeitam a linguagem falada. Eu acredito que na verdade a reinventa. Antigos padrões são substituídos por realidades inventadas, com identidade preservada. Continuamos pertencendo à nós mesmos, ao nosso íntimo, mas ao mesmo tempo nos envolvemos e nos misturamos tantas e tantas vezes – assumindo cores e sabores que não são nossos – que passamos a pertencer a algo maior. Como se a gente procurasse, ainda que em vão, por um pedacinho de alma. E essa incapacidade de encontrar se daria ao fato de que em certos momentos, somos mais do que aquilo que conhecemos, aquilo que estamos acostumados: passamos a assumir uma outra postura, com igual autenticidade. É difícil expressar algo tão abstrato. É como sair do seu próprio corpo por uns minutinhos e observar aquilo que é corpóreo como um espectador.

Às vezes é o que faço. Fico ausente por alguns momentos, a mente vagando por territórios desconhecidos. A vida da gente é tão repleta de caos, e essa virtude de calar o mundo com risos soltos ainda vai nos trazer o bem. E, ao mesmo tempo em que é uma demonstração de paz, os silêncios gritam mais alto do que os barulhos do nosso cotidiano de balburdia. Aos poucos, passo a entender espaços, limitar ânsias; enquanto que reajo instantaneamente à dúvidas interiores. Não existe como esperar de mim pouco – eu não poupo. Sou um escândalo cunhado em letras engarrafadas, sou um pedaço de contradição silenciosa, sou um coração andando na contramão.

Metamorfose

Engraçado como sempre costumava empilhar sentimentos como papéis sobre a cômoda. Cultuava esse hábito de manter recluso aquilo que tinha dificuldade de lidar, amontoando momentos como se pensasse ‘’ah, depois vejo o que eu faço com isso. Vejo que fim dou para essas besteirinhas do coração’’. Como presente, terminava por seguir vivendo – bem dizer, não vivendo – frutos das minhas renúncias.

Pensando um pouquinho no que passei nessa pouca vida, as lembranças mais marcantes são sempre aquelas que não pude prever; do contentamento à dor. Acho que o que posso adiantar do porvir é que adquiri uma facilidade – senão uma dádiva – de aceitar nãos. Refiro-me a algo um pouco maior do que os ''nãos'' que recebemos dos nossos pais, chefes, de quem estamos nos relacionando. São ''nãos'' interiores, como ''por mais que eu queira, não posso fazer isso’’ ou ‘’as coisas não vão seguir sempre segundo minhas expectativas''.

Ao contrário de como pode soar, essa não é uma confissão de incapacidade, e sim um produto de algumas experiências vividas, referindo-me aqui não só às frustrações como talvez pareça, mas também à inconsistência humana. Como já foi dito por outro, pessoas afinam e desafinam. Somos instantes: coletamos momentos um por um, não só para construir o futuro, mas para entender quem somos no presente. Acostumei-me tanto a esse pensamento que à esta altura tentar muda-lo seria como tentar negar uma certeza óbvia.

Sabe aquela sensação de quando saímos de um ambiente iluminado e entramos subitamente num cômodo escuro? Nossos olhos demoram alguns segundos para enxergar quando expostos à essa nova realidade. Mas depois de piscarmos algumas vezes, já podemos identificar formas. E aí nossa percepção indica que não importa o lugar para o qual vamos ou ficamos – tudo que precisamos já está inserido na nossa mente, prontinho para ser decodificado. Não o tipo de sensação que faz reviver fantasmas, mas que nos liberta de algumas correntes que nos prendiam junto ao chão. Correntes como o equívoco daqueles que não identificam o sentimento que não se enquadra dentro de uma visão limitada. E tudo aquilo que não se encaixa na medida dos nossos valores invertidos, da nossa ignorância disfarçada de moral, acaba por viver à margem.

Estar fora dessa mentalidade, dessa aceitação do senso comum, desse não entendimento clichê, traz uma satisfação desmedida. É quase uma sensação de manhã de natal. ''Então porque ainda estou esperando a neve cair? Não se parece nada com o natal''.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Espelho

Sonhei que estava exatamente aqui, olhando meu reflexo no espelho ao lado da cômoda. Engraçado, muitas são as vezes em que olhamos. Várias vezes ao dia, sempre em busca de defeitos. Nunca enxergamos de verdade, nunca temos tempo ou sensibilidade para ficarmos maravilhados com um sorriso novo, um olhar nunca visto, um trejeito adquirido.

Mas nesse sonho, eu despendia tempo suficiente para me observar, para me entender através da minha imagem. O meu rosto, subitamente, havia se transformado naquele que desejei por tanto tempo. Num momento, percebi que finalmente abocanhei o maior pedaço de mim mesma, alcancei minha real personalidade, o meu eu. Deixei de ser apenas alguém que possuía meu nome, para ser a minha dona. Pondo o máximo que conheço no mínimo que faço, sendo o mínimo que aceito no máximo que ajo. É muito chato viver nos limites daquilo que conceberam por nós, do que nos foi dito, do que nos foi pensado.

Agradeço, portanto, a quem permanecerá comigo, a quem se foi, a quem voltará, a quem não voltará e principalmente a quem sempre esteve aqui e me deixa ter a certeza de que sempre estará. A tudo que me fez transformar a utopia de ontem em carne e osso de hoje. Ao que hoje parece ser desafiador, digo: Sempre faço as coisas passionalmente, mas pelo caminho que a minha cabeça escolhe. Então é comum levar tempo, o difícil é ser paciente.

Permito-me a partilhar do prazer contido de constatar que perdi o medo do difícil, o que é tão doce. Eu odiaria ver um nome na pilha de "quase deu certo". Quando se tem a essência, tudo muda. Se eu pudesse ter uma segunda pele, provavelmente já sei no que espelharia. Lamentarei, assim, pelos que vão embora cedo, pelos que se contentam antes do final, pelos satisfeitos com o ameno. Descobri que quando não parece ter sentido algum... Ah, aí é onde está todo o sentido.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Só mais um texto

Estava sentada, escrevendo de novo sobre algo que não conheço, por ver através dos olhos de outra pessoa. É bom sair de si e enxergar além daquilo que está preso dentro de nós, daquilo que sabemos, do que estamos acostumados. A sutil diferença entre supor e experimentar. ''O abismo que é pensar e sentir.''

Pode parecer ceticismo, mas não é falta de amor: é a sobra dele! É amor próprio, em doses infinitas. Acredito no trânsito entre pessoas em nossas vidas, no movimento daquelas que se esvaem e daquelas que permanecem, garantindo que o coração esteja sempre cheio. Já me adjetivaram de várias formas. Mal resolvida, concordo. Mal lida, concordo. Mal repassada, aceito. Mas precisamos dessas lacunas, desses espacinhos que nunca foram preenchidos por perdermos o momento ideal, para continuarmos nos sentindo vivos. Ninguém encontra a plenitude tão cedo. Precisamos de um estímulo, de um motivo pelo qual viver valeria a pena.

Como já foi dito por outra boca, somos feitos de silêncio e som. Somos detentores da nossa própria verdade. Falar é uma insanidade, quase uma patologia... É vontade de viver até a última gota. Guardar me deixa submersa, perco o acesso a mim. Essa minha característica de ser mais minha do que de qualquer outro alguém tem que ajudado, no geral, durante minha vida. Mas no departamento do que sentimos - falo apenas em sentimento porque não sei nomear o pouco que restou - ela é uma burra. E quando esse sentimento está disfarçado de um nome próprio, o cuidado é redobrado. Tudo que é unilateral, por mais que possa doer, tem cura rápida. Tudo que é recíproco, por mais que eu possa me doar, tem efeitos maiores.

Por isso tento me lembrar do que me disseram uma vez. ''Você é gente, Gabriella. E gente também sofre.''

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Conversa

-Como é que a gente faz para jogar fora o que está preso?
-Não sei. Já pensou em limpar o armário?
-Fiz isso da última vez. Mas agora é diferente, sabe?
-Não. Nunca fui capaz de entender. Pode me explicar, por favor?
-Vou tentar. Será que isso vai me ajudar a entender?
-Já pensou em experimentar?
-Não gosto da quantidade de interrogações neste diálogo.
-Também não gosto. Esperava que você tivesse aprendido a pontuar as dúvidas, depois de tudo.
-Ainda não aprendi! Sabe, sou leiga nesses assuntos do coração. Estou fora desse departamento.
-Então assume essa incompetência?
-Que absurdo! Despejo meus problemas e só o que recebo são críticas. Pensei que sua função fosse me tranquilizar.
-Sou sua consciência, não seu calmante. Aliás, você tomou quantos noite retrasada?
-Nenhum. Desmaiei por puro cansaço! Sabe quando você adormece por desistir de tentar achar o fim de um círculo?
-Sei. Mas você pode sempre transformá-lo num quadrado, não pode? E qual o porquê de tudo isso?
-"Porque nem sempre".
-Nem sempre o quê?
-Não sei.
-Bem, esqueça. Você estava prestes a me esclarecer algo.
-É verdade. Ah, da outra vez tudo era uma bagunça aqui fora. Tinha tanta coisa acumulada que eu mal conseguia enxergar direito! Como se uma greve de lixeiros tivesse deixado todo esse lixo acumulado na minha calçada. A luz deformava e a cor enganava... Mas agora eu sei o que eu quero enxergar. Abri as janelas, já consigo respirar de novo.
-E dessa vez, qual é o problema?
-Agora está tudo errado aqui dentro. É o pior dos dilemas! Pior que se entrevar. Mas não dá pra organizar as coisas do lado de dentro, dá?
-Talvez. Num processo cirúrgico. Talvez um médico possa curar você.
-De que forma? Expurgar um câncer?
-É. Rasgar teu corpo pra costurar teu coração.
-E qual o meu diagnóstico?
-O mesmo de sempre, boba. Você é uma viciada.
-Em culpa, em dor ou no inalcançável?
-Entre outras coisas mais.
-Que outras coisas? Odeio esse mistério. Não quero essa angústia que faz de mim uma exaltada. Isso faz os batimentos cardíacos gemerem, falharem em sua arquitetura. Eu preciso entender! Quero entender!
-Toda essa preocupação em entender quando esse é o menor dos problemas. Já diria Clarice, "viver utrapasssa o entendimento".
-Isso parece clichê. Não somos clichê. Somos a doença perfeita.
-O mundo é clichê. O que você acha? Que tudo isso é exclusividade da sua cabeça? Não se sinta importante assim. As histórias se repetem, o tempo inteiro. Os dramas são os mesmos. Abismais.
-Dramas são para casais. Nós, não. Nós não somos nada.
-E também são muita coisa.
-É. Somos.
Pausa.
-Acho que é hora de ir.
-Você já vai? Olhou no relógio e se deu conta, ou alguém lhe disse isso?
-Não adianta mais ficar aqui. Você disse que não adiantaria tentar entender, não disse?
-De fato. Ainda assim, você não devia ir. Está tornando-se mais e mais fugidia.
-O que me prenderia aqui, então?
-Será que eu preciso explicar tudo? Você não tem que procurar entender, menina. O que você precisa fazer é decidir.

domingo, 4 de dezembro de 2011

''Dou-te mais uma vez.''

Certas coisas são tão nítidas que é de se lamentar o quanto demoramos pra entender. E ainda deve existir muito a ser decodificado por aqui. Nascemos completos o suficiente para nos bastarmos, mas não inteiros a ponto de nos limitarmos. Toda vez que negamos algo que em nosso interior desejamos, uma porção do porvir nos é roubado. Então entendi que talvez minha vida não seja caótica. Talvez o mundo seja caótico e a ruína dentro de mim seja meu íntimo implorando por um pedaço de sanidade.

Ao mesmo tempo, pensamentos opostos ladeiam-se tantas e tantas vezes. Extremos, dançam como pêndulos. E alternam-se como posições de um carrossel. Todas as minhas preces são destinadas para um mesmo propósito: que os anos não varram minhas lembranças e eu não pense onde estaríamos se tivesse pego sua mão. Porque se a certeza fere, a dúvida alucina.

Sou grata por encontrar depois das minhas pernas dois pés que me alicerçam ao chão, quase cimentados. Não me impedem de sonhar, mas minimizam o penar. Sei que essa coisa de ser ser humano é sofrida, mas não pretendo padecer tão cedo.

Presa no abismo entre sentir e pensar, não existe escolha certa. Talvez tenha procurado essa linha de fogo. Talvez a tenha atraído como um ímã. Partiremos do concreto rumo ao incerto. O que atormenta. Mas tudo bem, isso de tirar a paz sempre me interessou. Enterrei alguns medos e abri mão dos meus temores; não é assim que ensinaram que a gente tinha que fazer pra ser feliz?

Quero me adaptar como um camaleão a tudo aquilo que meu coração clamar.