domingo, 26 de junho de 2011

Vícios

Não sei por que cargas d’água adquiri esse vício. Possivelmente algum trauma de infância, ou simplesmente o complexo de filha caçula com pretensões de ser eternamente adulada. Não sei dizer qual foi a falha, aquele momento chave no qual comecei a usar os outros como escudo. A usar a mim mesma como escudo. A pensar mais e sentir menos.

Mas uma certeza, no meio a tantas incertezas, é que eu me transformei numa devoradora de emoções. Desaprendi o lema de ‘‘um dia de cada vez’’, uma vez que no dia seguinte já não é mais aquilo que eu quero. Nada daquilo. Nem uma partezinha. O objetivo – único e exclusivo – é apenas conseguir. E quando eu consigo, não existe mais nenhum desafio. Essa necessidade se ser posta a prova me leva a não querer mais, e por não querer mais, a iniciar um outro ciclo com mesmo desfecho.

Acho que sou viciada em culpa. Encaro relacionamentos como roupas: quando novas, são merecedoras de toda a minha atenção, e eu poderia passar horas apenas observando-as. Não passo, mas poderia. Então eu as uso, e por mais que ainda conservem um cheirinho de recém compradas, após a terceira lavagem eu as coloco no fundo da prateleira, perdidas no esquecimento. São velhas, portanto desgastadas. Então, entorpecida por esse consumismo-afetivo desenfreado, migro de loja em loja em busca da próxima peça. Até o momento em que vejo uma foto antiga, e penso: ‘’não é que essa blusa me caía bem?’’ E essa é a hora em que tateio a gaveta e recupero aquilo que estava fadado ao passado.

Mas logo me arrependo. Maldita blusa. Como ela pode surgir do nada, estimulando toda a minha excitação, e sem explicação alguma, na primeira vez que dou a chance de circular na luz do sol e perder o cheiro de naftalina, ela se torna totalmente inapropriada? De repente se tornou larga demais para mim, ou eu me tornei pequena demais para ela. Talvez esse tecido esteja fora de moda. Chego em casa absolutamente decida a me livrar dela.

Mas... Pensando bem, passamos bons momentos juntas.

Estive com ela naquele show da minha banda favorita. Assistimos filmes juntas na casa de um amigo. Ela visitou lugares que não gostaria de perder na memória. Nossa memória é uma coisa engraçada. A minha é, pelo menos. Ela tem essa mania de guardar lembranças boas para momentos inoportunos – como aqueles em que deveria colocar um ponto final nas coisas e extirpar esse câncer – e as mágoas para momentos oportunos, a exemplo daqueles que estou lendo um bom livro e me pego contemplando a parede. E a parede passa a me observar, também. E passamos a dialogar. E no segundo em que começo a ouvir seus conselhos, percebo o quanto a solidão pode ser perturbadora.

Então eu guardo novamente a blusa no meu armário. Ele é grande, arejado: tem espaço para mais uma. Uma de estimação, um pequeno mimo.

Em meio a esse jogo, passo a odiar a blusa. Rezo para todas as entidades espirituais pedindo aquele empurrãozinho essencial para rasgá-la com a tesoura da cozinha. Não obtenho respostas, nunca. Curioso como a parede me responde, mas nenhum retorno vem de outro plano. Acho que o cara lá de cima não aprova meu comportamento inescrupuloso. Seria eu mais culpada que os bêbados ou tabagistas? Enquadro isso como outro vício qualquer. O que seria uma redundância, já que é do conhecimento de todos que o amor é um vício.

Considero lamentável continuar com essa história, um somatório de desilusões, perdas e covardia. Sim, esta última no singular – não vou atribuí-la a ninguém além de mim. Mas ainda me classifico como uma psicótica mediana. Sei que é o receio de sofrer e depender daquele remédio que todos buscam e parece cada vez menos disponível no mercado – o tempo – que me impede de mostrar o meu lado mais bonito. Mas sei também que alguma coisa no tempo e no espaço vai me fazer mudar. Hoje eu faria qualquer coisa, se você me procurasse.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Maps

Faça as malas.

Não, não espero que me diga aonde vai. Nossos futuros não estão mais enraizados num mesmo plano, nossos destinos não seguem ladeados. E não adianta apelar para o sentimentalismo; nada perdura intacto através dos anos. Sempre, sempre mesmo, algo se perde no filtro da memória. Lembranças viram cinzas. Por isso não hesite... Não mude o foco.

Espere! Eu continuo a mesma. Desfaça as malas.

Eles não o amam como eu amo. Não amam o timbre da sua voz, nem a forma ininterrupta que seus cílios piscam. Não amam seus armários cheios de porcarias nem sua geladeira repleta de congelados, sei que não. Amam apenas o que é fácil, o que é conveniente. Amam suas intermináveis qualidades, e todas as outras bobagens superficiais. Mas apenas eu conheço o que descansa embaixo disso tudo. São só camadas.

Mas nem sempre foi assim. Quer saber? Refaça as malas.

Eu sei, ficar decepcionado com algumas pessoas não faz sentido. Às vezes, é como ficar surpreso com o fogo queimar. Faz parte da natureza deles. Mas isso não alivia a dor. Principalmente quando você percebe que sua função era apenas preencher um vazio já existente, curar uma ferida provocada por outro. E por curar esse alguém, você é quem acaba sangrando, quando percebe que nunca se tratou de você. E nessa rotina de usurpar outros papéis você cansa de ser um dublê.

Bem, desfaça as malas.

Fique o quanto quiser. Uma vez li que insistir em quem nos ignora não é masoquismo, é inconformismo. Nada é horrível nem maravilhoso; é o mesmo principio do ying-yang. Não há mal que sempre dure ou bem que nunca acabe. Por isso decidi viver uma vida mais ou menos feliz. O intermediário não pode ser considerado bom? Não seria algo como um equilíbrio? Felicidade demais incomoda. Talvez devêssemos ser modestos, nos contentar com o mais ou menos amor. Talvez seja melhor do que uma mais ou menos solidão.

Talvez você devesse fazer as malas. Juro, não vou voltar atrás dessa vez. Finalmente percebi que essa teoria do mais-ou-menos-amor nunca se provaria verdadeira. E o porquê dessa conclusão é que na verdade, não seriamos metades exatas de um mesmo sentimento. O amor não seria fracionado. Eu o guardaria por inteiro, e você não conservaria porcentagem alguma. Mesmo num mundo em que boas coisas não me acontecem, decidi que não é justo. Comigo, com você. Então, apesar de todos os pesares, estou deixando ir. E Deus continua sussurrando que o melhor está por vir.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Samson

Eu preciso dos seus erros. Preciso dos seus atrasos ao me buscar. Preciso dos seus suéteres rasgados. Preciso dos presentes errados que você me compra e que eu finjo que superaram minhas expectativas.

Preciso daqueles momentos embaraçosos onde você esquece o nome dos meus familiares. Preciso dos restaurantes de gosto duvidoso que você me leva. Preciso das suas composições carregadas de desalento e do seu dia-a-dia metódico. Preciso da sua paranóia. Preciso do seu ciúme dos meus amigos, primos e do meu cachorro. Preciso do cheiro do seu carro e do seu quarto. Preciso daquelas olheiras vindas de noites mal dormidas. Preciso da sua risada rouca e das inúmeras vezes que você perde o celular no banco de trás. Preciso do seu ronco ensaiado. Preciso que você complete minhas frases.

Preciso da sua barba mal feita. Preciso do seu corte de cabelo assimétrico. Preciso do seu tênis surrados, com cadarços desfiados e sujos de lama ou outra coisa qualquer. Preciso acordar e ver quinze ligações suas perdidas durante a madrugada. Preciso da sua respiração descompassada. Preciso, preciso.

Como os livros de história nos esqueceram? Deveríamos ter sido mencionados ao menos uma vez.

Você é meu mais doce erro.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Mais do mesmo

Não é você.

Queria deixar isso mais do que claro, assim não restarão dúvidas entre nós. E poderemos finalmente romper essa ligação doentia que insistimos em fazer perdurar. Francamente, não é você.

Tampouco, não se engane – não sou eu. Apesar de tender a assumir os nossos erros, e não só os meus, não suporto o peso. E como pesa! As toneladas de sarcasmo, incompreensão e deslealdade me fizeram sucumbir. Fizeram-nos sucumbir. Sendo assim, vamos promover o desapego. A saída benéfica que procuramos por tanto tempo, a solução para todos os confrontos, a voz para todos os silêncios.

Eu sei, questiono demais as coisas. Mas eu nunca questionei se eu amei. Dentre todas as interrogações que circundavam meus pensamentos, nunca hesitei em assumir essa verdade incontestável. No entanto, incontáveis foram as vezes em que me perguntei se o tive. Então reuni todas as evidências, todos os momentos partilhados, e não só os recheados de boa música, pele e poesia. Revivi todo o exagero de intensidade, como em um momento tudo que eu mais desejava era cobri-lo de agrados, e no segundo seguinte eu considerava a possibilidade de estrangulá-lo com a mangueira do jardim.

E foi aí que eu percebi, não foi você. Foi apenas tudo que você representou para mim, naquela época de desencontros. Você foi meu sol particular, foi meu mundo inteiro. Foi tudo que eu sempre quis e o que mais temi. Você foi meu espelho, meu reflexo; eu pude enxergar minhas impressões em seus contornos, suas linhas. Foi minha dose de sanidade quando tudo estava fora de órbita. Eu costumava não enxergar, e essa cegueira me levou a não olhar para fora. E, por não olhar para fora, logo me acostumei a não abrir de todo as janelas. E, por não abrir as janelas, me acostumei a viver no escuro. E aí esqueci como é sentir a luz, e você trouxe isso de volta. E me trouxe de volta ao lugar ao qual sempre pertenci, mas havia me esquecido disso.

Algumas coisas vão permanecer – o cheiro, o timbre, o toque. Você sabe que eu tenho essa coisa de pele, não consigo me desfazer. Posso guardar algumas camisas? Gosto delas. Sinto-me mais eu. Sempre fui mais eu com você. Acho que descobri um novo eu.

Não me leve a mal. Só quero fazê-lo tão feliz quanto você me fez, e acredite, a melhor forma de retribuição é a liberdade. Se eu não consigo aprender a não devorá-lo e você não consegue aprender a não me sufocar, é hora de partir. Antes que só sobre respeito. É muito triste quando a admiração e o encanto acabam, tendemos a apagar tantas boas recordações para nos curarmos enquanto o tempo não se encarrega de nos recompor. E não quero apagar nada, quero conservar seus sorrisos e seus resmungos. Quero por completo.

Não sei ao certo como vou deixar você partir, como os pais que criam os filhos para o mundo. Vou querer sempre mais.

Mais do mesmo.

Mas dói mesmo.

Acho adeus uma palavra deprimente e carregada de negativismo. Então, acho que vou usar ‘‘até breve’’. Se é a melhor forma de encerrar, não sei dizer. Se existe outro jeito, eu prefiro assim.