
Já ouvi incansáveis vezes a seguinte frase ''eu não sei amar pela metade''. O mais incomum e surpreendente ao meu respeito é que não apenas fujo à regra como também me enquadro no seu completo oposto; meu maior obstáculo é sempre amar pela metade, nunca amar o todo.
Dedicar-se completamentamente, deixar-se levar pelas emoções ou até mesmo pelas ações corriqueiras nunca foi o meu forte. Seria preferível seguir um caminho seguro do que trilhar um rumo desconhecido. Refiro-me à inconsistência, à falta de atenção para com os sentimentos dos outros e à falta de poder de resolução. Chegar ao fim dos meus objetivos é outro frequente problema.
Dessa forma dias se transformaram em semanas e semanas em meses; já não sabia o que me impulsionava adiante, pois não havia mais cor no meu mundo isolado. Isolado, porém seguro. Apesar dos dias e noites em tons cinzentos.
Isso me lembrava algumas linhas vistas no passado.. ''Este ambiente me causa repugnância... Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia que se escapa da boca de um cardíaco''. Dar um fim à minha agonia não era apenas um desejo - era uma necessidade. Uma vez me disseram que quando se deseja algo com demasiada força, a tendência é a realização do que almejamos. De alguma forma, meu subconsciente fizera o trabalho completo; o cômodo iluminou-se com uma sombra à espreita na soleira da porta.
E, no intervalo de uma pulsação, a escuridão cedeu à luz que transpassava pelas frestas. Não havia mais espaço para o cinza - as cores pareciam irradiar de todos os seus orifícios. Um afago em meu rosto entorpeceu meu íntimo; ele sabe muito bem que quando adormece está roubando o sono de outra gente.
Vai-se minh'alma toda nos teus beijos, ri-se o meu coração na tua boca!