E assim teve o início de um ciclo de sucessivos encontros desencontrados. Nunca abriram mão do lado seguro da calçada, nunca arriscaram alguns passos para longe do terreno conhecido. Mal se olharam, jamais se falaram; pareciam tão íntimos, porém. Simetricamente compatíveis. Completavam frases silenciosas. Partilhavam dos mesmos pensamentos, gostos e gestos. Reconheciam-se em frases musicadas.
No entanto, tentar parecia exigir demais. Era preciso coragem, tempo e paciência que não despunham. Desprender tanto em nome do incerto. Sem garantias ou falsas promessas. Ela sucumbia por tão pouco ao se sentir vulnerável, ignorada. Ele desconhecia o quão controverso era em suas ações, ignorante. Não existia em parte alguma um roteiro a ser seguido. Era um dia de cada vez, aliciando os maiores desejos nesse redemoinho de sensações. O que havia de mais tentador, e havia demais. Existiam outras tantas verdades presas em seu interior - e reter tudo dentro de si já não era eficaz, mas outra solução não era apresentada. E aí vinham de todos os lados, de ponta a ponta, doses de profunda dor. O coração era taquicárdico, o estômago despencava aos montes, as palavras surgiam mas a língua era áspera. Ela estava decidida: se dentro dela não mais cabe, acabe. Ele estava temeroso, como tantos tontos que não sabem lidar com o que lhes é ofertado.
Antes que se tornasse um estranho aos seus próprios olhos, surgiu o princípio da desistência. E quem ele conhece passou a ser quem ele conhecia. Num rodapé, as palavras brilhavam contra a luz: ''quem é você que me esqueceu, cadê você que eu não esqueço...''.
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