quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Fidelity




Já ouvi incansáveis vezes a seguinte frase ''eu não sei amar pela metade''. O mais incomum e surpreendente ao meu respeito é que não apenas fujo à regra como também me enquadro no seu completo oposto; meu maior obstáculo é sempre amar pela metade, nunca amar o todo.

Dedicar-se completamentamente, deixar-se levar pelas emoções ou até mesmo pelas ações corriqueiras nunca foi o meu forte. Seria preferível seguir um caminho seguro do que trilhar um rumo desconhecido. Refiro-me à inconsistência, à falta de atenção para com os sentimentos dos outros e à falta de poder de resolução. Chegar ao fim dos meus objetivos é outro frequente problema.

Dessa forma dias se transformaram em semanas e semanas em meses; já não sabia o que me impulsionava adiante, pois não havia mais cor no meu mundo isolado. Isolado, porém seguro. Apesar dos dias e noites em tons cinzentos.

Isso me lembrava algumas linhas vistas no passado.. ''Este ambiente me causa repugnância... Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia que se escapa da boca de um cardíaco''. Dar um fim à minha agonia não era apenas um desejo - era uma necessidade. Uma vez me disseram que quando se deseja algo com demasiada força, a tendência é a realização do que almejamos. De alguma forma, meu subconsciente fizera o trabalho completo; o cômodo iluminou-se com uma sombra à espreita na soleira da porta.

E, no intervalo de uma pulsação, a escuridão cedeu à luz que transpassava pelas frestas. Não havia mais espaço para o cinza - as cores pareciam irradiar de todos os seus orifícios. Um afago em meu rosto entorpeceu meu íntimo; ele sabe muito bem que quando adormece está roubando o sono de outra gente.
Vai-se minh'alma toda nos teus beijos, ri-se o meu coração na tua boca!

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Pedido




Sabe aquela sensação de ter o vento batendo no rosto num dia de sol? Ou de acordar em pleno domingo com o canto dos pássaros? Qualquer uma delas seria boa, mas nem todas elas juntas chegariam perto da felicidade que emanava em seu peito. Era tanto o contentamento que parecia que não ia caber; seria justo que uma pessoa fosse tão feliz assim?
O ocorria naquela tarde cinzenta de sexta-feira tinha transformado o dia de quarta-feira de cinzas para sábado de carnaval, colorindo o céu. Deus deve ser um pintor. Por quê então existem tantas cores?
Seus dedos fecharam-se na esfera perfeita; era fria em sua palma quente. Seus lábios trêmulos proferiram um ‘sim’ aos sussurros, enquanto o sangue latejava em suas juntas e o palpitar de seu coração era tão frenético que se tornou doce melodia no ambiente. Meneou o rosto quando seu olhar encontrou com aquele par de olhos cor de âmbar já conhecidos; e devorou-os. Suas palavras se cruzavam, se casavam, andavam juntas.
Em seus ouvidos, não havia espaço para o agora; moça, sons guardados na memória mandam quando o coração é o maestro. A imaginação é uma senhora muito rápida, pede emprestadas as asas do cupido e sobe com elas além dos limites possíveis; em uma fração de segundo pulou do pedido para a confirmação dos votos, uma vez que a primeira parte evoluiu de um devaneio profundo para a esperada realidade.
Num movimento sutil, ele encaixou-a em seus braços. Se permanecesse ali para sempre, seria feliz para sempre.

domingo, 1 de agosto de 2010

Esqueceram de nos dizer..

Cresci acreditando que tínhamos um limite pré estabelecido para tudo.
Só se deve comer um chocolate por dia. Café à noite faz mal. Ficar acordada só até às 23h. Não devemos chorar pelos cantos, mas também não é natural estar sempre sorrindo. Felicidade demais incomoda.
Alguém nos disse que só era possível ser feliz se fôssemos sociáveis e bonitos a todo instante, não importa o quanto o seu interior esteja feio. Seu eu pode estar dilacerado, mas ninguém desconfiará se conservar um sorriso no rosto, por mais vazio que este seja.
Não gosto da ideia de que alguém me completará algum dia, como se tivesse nascido pela metade. E vim de forma a contibuir para que não depositem em mim nada que já não seja meu, não gosto do peso e do quanto pesa. Gosto de dividir; muitas vezes dividir é multiplicar.
Não gosto de viver na sombra, mas não almejo o estrelato; quero alguém para estar na mesma página. Assim qualquer pessoa poderá enlouquecer. Afinal, é isso que nos iguala, que passa por cima de religião, cor. Ocidente e Oriente, das línguas. A loucura, assim como o amor, iguala. A loucura e o amor. O que dá no mesmo.
Porque é esse amor verdadeiro que persiste, que se esgueira em todos os pensamentos e torna-se a substância, ou, como diriam nossos pais, o estofo da vida. Direi: ‘Vou colecionar mais um soneto, outro retrato em branco e preto a maltratar meu coração’.

sábado, 31 de julho de 2010

Passagem



O tempo passará, mas é necessário que as pessoas deixem-se levar com ele?
Hoje eu percebi quão efêmeras são as coisas. Rotineiras. Estão ali, tão repetitivas e cravadas em nosso inconsciente como brasa que não nos damos conta do quanto são passageiras. E não será tudo assim, afinal? Um amontoado de momentos que formarão lembranças que um dia vão doer no peito?
E agora a dor pesa, pisa com salto de agulha. O ar parece que vai faltar; não falta. A pele parece que vai rasgar; não rasga.
Tudo faz-se escuro. Mas o som dos passos contra o piso continuam, cada dia menos fortes, cada dia mais cansados, cada dia menos passos.
Os ombros curvam-se, pesados. Eles carregarão a plenitude da culpa de uma vida não vivida. É sempre pouca sorte, é sempre muito ao norte, e é coberto de areia.
É sempre pouca veia - e muito sangue.