-E foi assim. Assim acabamos antes mesmo de começarmos de fato.
-Sempre digo isso: só se pode cobrar de um relacionamento quando realmente se está em um.
-Mas o que faltava? Para mim era tão claro e simples, tão nítido. Simplesmente existia, estava lá.
-Convenhamos, vocês não tinham muito em comum.
-Afinidade acontece.
-Afinidade é simpatia...
-E simpatia é quase amor!
-Cada um enxerga o que quer ver, eu acho.
-E agora eu estou com aquela sensação de que acabei de perder a última reserva de ar que eu tinha antes de me afogar. Já teve essa sensação?
-Já, e é assim mesmo. Acredita que até hoje não descobri como agir? Como se nada mais pudesse te trazer de volta a superfície.
-E onde eu me afundei?
-Acho que você tentou afogá-lo dentro de você. Com as incontáveis doses da noite passada, lembra?
-Reflexos. Mas as doses eu pude vomitar e expulsá-las de mim: e com esse sentimento, essa agonia, o que eu devo fazer? Não existe nenhum mecanismo do meu corpo que eu possa ativar e simplesmente jogar fora tudo que maltrata meu organismo, tudo que me consome por dentro. E consome pra caralho!
-Pra caralho!!!
-Toda pessoa de cabelo cheio que entrava eu achava que era ele. Assim como acho quando estou na rua, no supermercado, na fila do cinema, dormindo. Virei uma caçadora de pessoas cacheadas. Virei uma caçadora dele em todas as pessoas.
- É o mesmo princípio da tatuagem: Só o que dói, só o que sangra fica pra sempre.
-Então ficará para sempre?
-Talvez. É como dizem, todo sopro que apaga uma chama, reacende o que for pra ficar.
-É um sentimento de...
-Perda?
-É. Misturado com uma incapacidade, um desejo de mudar tudo, mas estou com as mãos atadas.
-Mas não está.
-Mas é assim que eu me sinto, e vivendo essa perspectiva eu posso livremente culpar o destino ou qualquer outra entidade sobrenatural que comande a história dos homens.
-Isso se chama covardia.
-Talvez. Ou fé.
-Isso tudo pelo rapaz da outra rua?
-É.
-Aquele com olhos cor de âmbar?
-Sim.
-Que gostava de você?
-Sim.
-E você não gostava?
-É.
-E agora gosta?
-É.
-E agora ele está com outra?
-Sim.
-E qual o motivo de você tê-lo deixado ir?
-Não existe um monossílabo para responder isso!
Silêncio.
Por isso para dar certo é necessário verdade. Isso, coloque verdade, em doses imensas. Inclua frases como: “já viu como a lua está linda hoje?” ou “eu adoro dias frios” ou “hahaha”, mas, principalmente, esta: “gostou? Fui eu que fiz”.
E principalmente, o entregue a uma só pessoa. E não faça dessa pessoa o seu mundo inteiro, mas pelo menos preencha partes enormes com ela. E isso será chamado amor.
terça-feira, 22 de março de 2011
terça-feira, 15 de março de 2011
Carta à Amizade Colorida
Olhe, não acho que a melhor forma de se iniciar uma carta seja lançando críticas ao destinatário, mas você fez por merecer. Nós duas sabemos como a sua chegada, quase sempre silenciosa, tem efeitos bem mais dolorosos do que aparenta.
Sim, eu sei. Existe – e sempre existirá – a desculpa na qual você se esconde: era só amizade. Mas na verdade, ambas conhecemos as conseqüências dos seus atos impensados. Ora, amizade e amor já são sentimentos tão absurdamente confusos se pensados isoladamente, e a senhorita os junta por puro prazer! Que justiça há nisso?
Aposto que você tem apoio de outro rapazinho que faz graça das sensações que provoca nos homens e mulheres: o Tesão. Sim, ele mesmo. Esse tolo inconseqüente que é capaz de deixar-nos embaraçados na frente de nossos chefes, vizinhos, primos e sabe-se lá quem será a próxima vítima. E aparece sem aviso prévio: seu ataque pode chegar em pleno almoço de domingo, na ceia de natal e, Deus me perdoe – até na Igreja! Somos meras marionetes humanas sujeitas ao seu repentino aparecimento.
Gostaria de saber também se a Depressão não se manifesta diante de tal comportamento abusivo. Afinal, a Depressão é uma senhora cansada, e é de conhecimento geral que quando o Tesão nos leva a fazer coisas impulsivas, o que nos resta depois da diversão é só a dor. E aí vem o trio que cerca os corações aflitos: a Desesperança, a Mágoa e o Medo. Este último nos faz mergulhar em calabouços e armadilhas articuladas pela nossa própria mente, tão propensa a imaginar finais felizes em situações onde não existe espaço para estes. E quando nos damos conta da arapuca em que nos metemos... Simplesmente não há o que fazer. Foi tudo tão rápido, tão claro, tão simples... Como respirar. Como se vê, simples começa com ‘sim’, e essa aceitação é o necessário para levar fantasias com finais trágicos adiante. Essa miopia seletiva, esse daltonismo afetivo...
Ainda estou na puberdade mental, meu cérebro ainda está mudando de voz, deve ser isso.
É um mal terrível da nossa geração, não é? Refiro-me a essa máscara inerente ao comportamento humano que está cada vez mais entranhada na nossa personalidade. Fingimos o que não sentimos e sentimos o que fingimos; essa ciranda que sempre termina em dor, dor e mais dor. E assim, disfarçando interesses sinceros por trás da suposta ‘’amizade colorida’’ penetramos cada vez mais num submundo unilateral, onde uma das partes realmente ama o todo, e não pela metade, e a outra ama apenas o jogo.
Então aqui vai um apelo: eu sei, você ainda é nova e inexperiente. Tem muitos anos pela frente para perder tempo desapontando-se com a falta de honestidade presente nas relações afetivas. Por isso que eu peço, por carregar o peso da vivência humana: mantenha-se longe. Porque a excitação do princípio não supera o sofrimento do fim. Sim, existem os raros casos em que de você, cara amizade colorida, surgem amores duradouros. Mas não estamos trabalhando estatisticamente, não é? Sejamos objetivas; sua presença traz em abundância dor e solidão, mesclada com pequenos focos de satisfação e contentamento.
Se você acha que algum pobre coração cairá nas suas garras, vá em frente. Não é a fria lógica dos seus argumentos que irá guiar o meu daqui por diante. Quero ver a vida por outros olhos, que não os seus. Quero beber por outros motivos, que não afogar você dentro de mim. Vá resolver as suas carências em outro endereço.
E como diz um sábio verso bem conhecido, ''não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais''.
Sim, eu sei. Existe – e sempre existirá – a desculpa na qual você se esconde: era só amizade. Mas na verdade, ambas conhecemos as conseqüências dos seus atos impensados. Ora, amizade e amor já são sentimentos tão absurdamente confusos se pensados isoladamente, e a senhorita os junta por puro prazer! Que justiça há nisso?
Aposto que você tem apoio de outro rapazinho que faz graça das sensações que provoca nos homens e mulheres: o Tesão. Sim, ele mesmo. Esse tolo inconseqüente que é capaz de deixar-nos embaraçados na frente de nossos chefes, vizinhos, primos e sabe-se lá quem será a próxima vítima. E aparece sem aviso prévio: seu ataque pode chegar em pleno almoço de domingo, na ceia de natal e, Deus me perdoe – até na Igreja! Somos meras marionetes humanas sujeitas ao seu repentino aparecimento.
Gostaria de saber também se a Depressão não se manifesta diante de tal comportamento abusivo. Afinal, a Depressão é uma senhora cansada, e é de conhecimento geral que quando o Tesão nos leva a fazer coisas impulsivas, o que nos resta depois da diversão é só a dor. E aí vem o trio que cerca os corações aflitos: a Desesperança, a Mágoa e o Medo. Este último nos faz mergulhar em calabouços e armadilhas articuladas pela nossa própria mente, tão propensa a imaginar finais felizes em situações onde não existe espaço para estes. E quando nos damos conta da arapuca em que nos metemos... Simplesmente não há o que fazer. Foi tudo tão rápido, tão claro, tão simples... Como respirar. Como se vê, simples começa com ‘sim’, e essa aceitação é o necessário para levar fantasias com finais trágicos adiante. Essa miopia seletiva, esse daltonismo afetivo...
Ainda estou na puberdade mental, meu cérebro ainda está mudando de voz, deve ser isso.
É um mal terrível da nossa geração, não é? Refiro-me a essa máscara inerente ao comportamento humano que está cada vez mais entranhada na nossa personalidade. Fingimos o que não sentimos e sentimos o que fingimos; essa ciranda que sempre termina em dor, dor e mais dor. E assim, disfarçando interesses sinceros por trás da suposta ‘’amizade colorida’’ penetramos cada vez mais num submundo unilateral, onde uma das partes realmente ama o todo, e não pela metade, e a outra ama apenas o jogo.
Então aqui vai um apelo: eu sei, você ainda é nova e inexperiente. Tem muitos anos pela frente para perder tempo desapontando-se com a falta de honestidade presente nas relações afetivas. Por isso que eu peço, por carregar o peso da vivência humana: mantenha-se longe. Porque a excitação do princípio não supera o sofrimento do fim. Sim, existem os raros casos em que de você, cara amizade colorida, surgem amores duradouros. Mas não estamos trabalhando estatisticamente, não é? Sejamos objetivas; sua presença traz em abundância dor e solidão, mesclada com pequenos focos de satisfação e contentamento.
Se você acha que algum pobre coração cairá nas suas garras, vá em frente. Não é a fria lógica dos seus argumentos que irá guiar o meu daqui por diante. Quero ver a vida por outros olhos, que não os seus. Quero beber por outros motivos, que não afogar você dentro de mim. Vá resolver as suas carências em outro endereço.
E como diz um sábio verso bem conhecido, ''não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais''.
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