-Como é que a gente faz para jogar fora o que está preso?
-Não sei. Já pensou em limpar o armário?
-Fiz isso da última vez. Mas agora é diferente, sabe?
-Não. Nunca fui capaz de entender. Pode me explicar, por favor?
-Vou tentar. Será que isso vai me ajudar a entender?
-Já pensou em experimentar?
-Não gosto da quantidade de interrogações neste diálogo.
-Também não gosto. Esperava que você tivesse aprendido a pontuar as dúvidas, depois de tudo.
-Ainda não aprendi! Sabe, sou leiga nesses assuntos do coração. Estou fora desse departamento.
-Então assume essa incompetência?
-Que absurdo! Despejo meus problemas e só o que recebo são críticas. Pensei que sua função fosse me tranquilizar.
-Sou sua consciência, não seu calmante. Aliás, você tomou quantos noite retrasada?
-Nenhum. Desmaiei por puro cansaço! Sabe quando você adormece por desistir de tentar achar o fim de um círculo?
-Sei. Mas você pode sempre transformá-lo num quadrado, não pode? E qual o porquê de tudo isso?
-"Porque nem sempre".
-Nem sempre o quê?
-Não sei.
-Bem, esqueça. Você estava prestes a me esclarecer algo.
-É verdade. Ah, da outra vez tudo era uma bagunça aqui fora. Tinha tanta coisa acumulada que eu mal conseguia enxergar direito! Como se uma greve de lixeiros tivesse deixado todo esse lixo acumulado na minha calçada. A luz deformava e a cor enganava... Mas agora eu sei o que eu quero enxergar. Abri as janelas, já consigo respirar de novo.
-E dessa vez, qual é o problema?
-Agora está tudo errado aqui dentro. É o pior dos dilemas! Pior que se entrevar. Mas não dá pra organizar as coisas do lado de dentro, dá?
-Talvez. Num processo cirúrgico. Talvez um médico possa curar você.
-De que forma? Expurgar um câncer?
-É. Rasgar teu corpo pra costurar teu coração.
-E qual o meu diagnóstico?
-O mesmo de sempre, boba. Você é uma viciada.
-Em culpa, em dor ou no inalcançável?
-Entre outras coisas mais.
-Que outras coisas? Odeio esse mistério. Não quero essa angústia que faz de mim uma exaltada. Isso faz os batimentos cardíacos gemerem, falharem em sua arquitetura. Eu preciso entender! Quero entender!
-Toda essa preocupação em entender quando esse é o menor dos problemas. Já diria Clarice, "viver utrapasssa o entendimento".
-Isso parece clichê. Não somos clichê. Somos a doença perfeita.
-O mundo é clichê. O que você acha? Que tudo isso é exclusividade da sua cabeça? Não se sinta importante assim. As histórias se repetem, o tempo inteiro. Os dramas são os mesmos. Abismais.
-Dramas são para casais. Nós, não. Nós não somos nada.
-E também são muita coisa.
-É. Somos.
Pausa.
-Acho que é hora de ir.
-Você já vai? Olhou no relógio e se deu conta, ou alguém lhe disse isso?
-Não adianta mais ficar aqui. Você disse que não adiantaria tentar entender, não disse?
-De fato. Ainda assim, você não devia ir. Está tornando-se mais e mais fugidia.
-O que me prenderia aqui, então?
-Será que eu preciso explicar tudo? Você não tem que procurar entender, menina. O que você precisa fazer é decidir.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
domingo, 4 de dezembro de 2011
''Dou-te mais uma vez.''
Certas coisas são tão nítidas que é de se lamentar o quanto demoramos pra entender. E ainda deve existir muito a ser decodificado por aqui. Nascemos completos o suficiente para nos bastarmos, mas não inteiros a ponto de nos limitarmos. Toda vez que negamos algo que em nosso interior desejamos, uma porção do porvir nos é roubado. Então entendi que talvez minha vida não seja caótica. Talvez o mundo seja caótico e a ruína dentro de mim seja meu íntimo implorando por um pedaço de sanidade.
Ao mesmo tempo, pensamentos opostos ladeiam-se tantas e tantas vezes. Extremos, dançam como pêndulos. E alternam-se como posições de um carrossel. Todas as minhas preces são destinadas para um mesmo propósito: que os anos não varram minhas lembranças e eu não pense onde estaríamos se tivesse pego sua mão. Porque se a certeza fere, a dúvida alucina.
Sou grata por encontrar depois das minhas pernas dois pés que me alicerçam ao chão, quase cimentados. Não me impedem de sonhar, mas minimizam o penar. Sei que essa coisa de ser ser humano é sofrida, mas não pretendo padecer tão cedo.
Presa no abismo entre sentir e pensar, não existe escolha certa. Talvez tenha procurado essa linha de fogo. Talvez a tenha atraído como um ímã. Partiremos do concreto rumo ao incerto. O que atormenta. Mas tudo bem, isso de tirar a paz sempre me interessou. Enterrei alguns medos e abri mão dos meus temores; não é assim que ensinaram que a gente tinha que fazer pra ser feliz?
Quero me adaptar como um camaleão a tudo aquilo que meu coração clamar.
Ao mesmo tempo, pensamentos opostos ladeiam-se tantas e tantas vezes. Extremos, dançam como pêndulos. E alternam-se como posições de um carrossel. Todas as minhas preces são destinadas para um mesmo propósito: que os anos não varram minhas lembranças e eu não pense onde estaríamos se tivesse pego sua mão. Porque se a certeza fere, a dúvida alucina.
Sou grata por encontrar depois das minhas pernas dois pés que me alicerçam ao chão, quase cimentados. Não me impedem de sonhar, mas minimizam o penar. Sei que essa coisa de ser ser humano é sofrida, mas não pretendo padecer tão cedo.
Presa no abismo entre sentir e pensar, não existe escolha certa. Talvez tenha procurado essa linha de fogo. Talvez a tenha atraído como um ímã. Partiremos do concreto rumo ao incerto. O que atormenta. Mas tudo bem, isso de tirar a paz sempre me interessou. Enterrei alguns medos e abri mão dos meus temores; não é assim que ensinaram que a gente tinha que fazer pra ser feliz?
Quero me adaptar como um camaleão a tudo aquilo que meu coração clamar.
segunda-feira, 14 de novembro de 2011
Acaso
Hoje conheci um velho amigo.
Não, não existe nenhum erro na frase acima. Foi exatamente o que quis dizer. Talvez a interpretação demore a vir corretamente, então dê-me a chance de esclarecer meus pensamentos; tenho essa mania de falar – ou melhor, escrever – como se o que estivesse cravado em meu íntimo fosse também exposto para os demais. Na verdade, o reconheci. Raras são as ocasiões em que as pessoas relacionam-se com outras, de carne, osso e coração – normalmente, interagimos com projeções, produtos perfeitos de nossa imaginação fantasiosa. Dessa forma, evoluímos um quadro de afeição para amor em segundos; certo alguém é tão alegre, vivo e espirituoso! Parece absurdo que tenha demorado tanto para encontra-lo. Alguém tão milimetricamente desenvolvido para mim. Com todas minhas mínimas exigências e desejos atendidos. Até as imperfeições feitas sob medida; a risada rouca e o humor ácido. Aquilo que vai me tirar do sério e trazer a loucura necessária – o descanso do perfeito. Todos precisamos de alguém para nos enlouquecer. Esqueça o sexo, a língua e a tradição - só duas coisas nesse mundo são capazes de nos igualar: o amor e a loucura. O que é quase um pleonasmo.
Voltamos a minha mais recente descoberta. Meu querido desconhecido. De longa data.
Tenho essa estranha mania, quase uma síndrome, de explicar-me para estranhos. Bem, talvez nem tanto, talvez – num mundo no qual as coisas façam sentido e eu não seja apenas mais uma alma atormentada que sente saudade sabe-se lá do quê e lancha aspirina – eu apenas soubesse que ele não era apenas um qualquer que eu conheci num café, mesmo que fosse. Droga, isso soa brega. Pulando o momento constrangedor no qual confundo um simples encontro casual com algum evento cósmico e sobrenatural (ou pior ainda, uma ocasião escrita por alguma entidade espiritual – isso porque não consigo ser mesquinha o suficiente para acreditar que Deus estivesse desperdiçando seus divinos segundos preciosos com minhas besteiras mundanas), o fato é que em um momento estava perguntando se aquele era um livro de Anne Rice e no momento seguinte estávamos discutindo sobre as concepções do mundo moderno. E aquilo parecia fantasticamente certo. Como deve parecer.
Talvez devesse ser assim. A sutil diferença de ler uma coisa nos livros, vê-la nos filmes e de fato vivenciá-la. Refiro-me à inconsistência – não aquela que simula a admiração, mas aquela que avassala o sentir. Não quero uma alusão à ilusão dos que acreditam em momentos e corações destinados, mas vai um aviso aos desencontrados: o que tem que surgir, surge.
Não, não existe nenhum erro na frase acima. Foi exatamente o que quis dizer. Talvez a interpretação demore a vir corretamente, então dê-me a chance de esclarecer meus pensamentos; tenho essa mania de falar – ou melhor, escrever – como se o que estivesse cravado em meu íntimo fosse também exposto para os demais. Na verdade, o reconheci. Raras são as ocasiões em que as pessoas relacionam-se com outras, de carne, osso e coração – normalmente, interagimos com projeções, produtos perfeitos de nossa imaginação fantasiosa. Dessa forma, evoluímos um quadro de afeição para amor em segundos; certo alguém é tão alegre, vivo e espirituoso! Parece absurdo que tenha demorado tanto para encontra-lo. Alguém tão milimetricamente desenvolvido para mim. Com todas minhas mínimas exigências e desejos atendidos. Até as imperfeições feitas sob medida; a risada rouca e o humor ácido. Aquilo que vai me tirar do sério e trazer a loucura necessária – o descanso do perfeito. Todos precisamos de alguém para nos enlouquecer. Esqueça o sexo, a língua e a tradição - só duas coisas nesse mundo são capazes de nos igualar: o amor e a loucura. O que é quase um pleonasmo.
Voltamos a minha mais recente descoberta. Meu querido desconhecido. De longa data.
Tenho essa estranha mania, quase uma síndrome, de explicar-me para estranhos. Bem, talvez nem tanto, talvez – num mundo no qual as coisas façam sentido e eu não seja apenas mais uma alma atormentada que sente saudade sabe-se lá do quê e lancha aspirina – eu apenas soubesse que ele não era apenas um qualquer que eu conheci num café, mesmo que fosse. Droga, isso soa brega. Pulando o momento constrangedor no qual confundo um simples encontro casual com algum evento cósmico e sobrenatural (ou pior ainda, uma ocasião escrita por alguma entidade espiritual – isso porque não consigo ser mesquinha o suficiente para acreditar que Deus estivesse desperdiçando seus divinos segundos preciosos com minhas besteiras mundanas), o fato é que em um momento estava perguntando se aquele era um livro de Anne Rice e no momento seguinte estávamos discutindo sobre as concepções do mundo moderno. E aquilo parecia fantasticamente certo. Como deve parecer.
Talvez devesse ser assim. A sutil diferença de ler uma coisa nos livros, vê-la nos filmes e de fato vivenciá-la. Refiro-me à inconsistência – não aquela que simula a admiração, mas aquela que avassala o sentir. Não quero uma alusão à ilusão dos que acreditam em momentos e corações destinados, mas vai um aviso aos desencontrados: o que tem que surgir, surge.
quarta-feira, 2 de novembro de 2011
Diamante
Escrevi alguns versos tortos pensando bastar para que você retorne. O peso de algumas palavras não ditas surtia efeito; precisava dizer que sentia falta. Precisava dizer que gostava. O quanto gostava. Das conversas, da paz que me traz, do modo como seu sorriso imobiliza e derrete até os corações mais frígidos. Apenas dizer que te tinha apreço - pode ser por mais um dia, um mês, um ano ou várias vidas. Já sei que me dôo demais e dôo por dentro; aceito o fim só por hoje. Ou partir de hoje. O tormento que me causava sempre foi como apnéia - tira o sossego, a calma e a respiração. Lidei com duas faces: só o tinha em minha ausência e só me achava em sua presença. Sendo assim, chamei-o diamante - cegou-me os olhos e tornou-se foco - fez com que se tornasse belo, nosso, tornou-se assim nosso elo. Diamante que é a pedra mais dura e resistente, e deriva do grego "inconquistável". Era você, fixo em seu pedestal, três andares acima de mim. Hoje vejo que essa suposta superioridade ruiu, como roda-viva. Inteira, vejo com mais clareza. Não foi a recusa do convívio que me trouxe paz; meus valores, mesmo quando colocados contra os seus, se situavam também a partir deles. Não, foi algo a mais. Foi amor próprio. E agora você me chama. Já tracei um novo caminho, vejo a estupidez de retornar alguns passos. Uma vez experimentada, essa liberdade me ganhou... Só não entendo o porquê do só me querer tão só. Posso ser mais minha?
Como disse, "não imagine que te quero mal. Apenas não te quero mais."
Como disse, "não imagine que te quero mal. Apenas não te quero mais."
sábado, 22 de outubro de 2011
-
Arde, mas não queima.
Você quer sumir, fugir. Desaparecer por uns instantes. Habitar qualquer corpo que não seja o seu. Porque ser você naquele momento dói, e pedir para que continue vivendo parece exigir demais. Você reza para fechar os olhos e calar a mente.
Mas não consegue silenciar o coração; esse grita. Você trava uma batalha instintiva entre o racional e o emocional. Espera uma atitude heróica, mas ao mesmo tempo sabe que ela não virá.
Quer arrancar a pele, desconectar os pensamentos. Quer coisas demais. Nem sabe mais o que quer.
Tenta convencer-se que pode viver muito bem sem aquele amor. Que agora é mais feliz. Que encontrou a sua paz. Internamente, o peito esbraveja o contrário.
Não se engane, meu caro. Isso é ciúme.
Você quer sumir, fugir. Desaparecer por uns instantes. Habitar qualquer corpo que não seja o seu. Porque ser você naquele momento dói, e pedir para que continue vivendo parece exigir demais. Você reza para fechar os olhos e calar a mente.
Mas não consegue silenciar o coração; esse grita. Você trava uma batalha instintiva entre o racional e o emocional. Espera uma atitude heróica, mas ao mesmo tempo sabe que ela não virá.
Quer arrancar a pele, desconectar os pensamentos. Quer coisas demais. Nem sabe mais o que quer.
Tenta convencer-se que pode viver muito bem sem aquele amor. Que agora é mais feliz. Que encontrou a sua paz. Internamente, o peito esbraveja o contrário.
Não se engane, meu caro. Isso é ciúme.
quarta-feira, 5 de outubro de 2011
Nesses dias amenos que a gente se sente pequena. Um ponto meio sem rumo, sem direção certa a seguir. Cada vez mais interrogações, cada vez menos tentativas. Não encontro dentro de mim meu complemento, o instrumento adequado para calar as dúvidas. A alma está no corpo como um cárcere; não são mais partes de um quebra-cabeça.
Busco não uma cura, mas um alívio - um pouco de saúde. Ouvir as palavras certas - vindas de qualquer direção - é um descanso. Da mesma forma que a permissividade cultua vícios, a negação e o isolamento nos tornam menos humanos. O silêncio anda é uma forma de comunicação.
Tenho essa necessidade de conhecer cada ínfimo centímetro do outro, talvez na tentativa de me conhecer juntamente. Sou uma deficiente de coração, desconhecedora da minha própria alma. Da mesma forma, acredito que pessoas não estão terminadas como um livro - moldam-se, modificam, ganham novos cheiros e roteiros. Unir alguém e um destino imutável é uma ação extrínseca, até violenta. E quando encontramos quem compreenda essa metamorfose, rejeitamos. Por pura ignorância. Somos ensinados a subestimar quem entende. Desconfiamos. Também somos doutrinados para apreciar o que apresenta dificuldade, o que requer sacrifício; se algo de fato vale a pena, deve ser quase inalcançável. Tendemos a desvalorizar o que não está num pedestal distante.
No entanto, acredito que aquilo que surge sem explicação guarda em si o que há de mais interessante. Até hoje, tudo que vi ou vivi fruto de expectativas baseadas no dever-ser não renderam grandes finais. Por outro lado, das coisas mais bobas e inesperadas surgiram grandes rotas. E o que há nesse mundo mais bonito do que simplicidade?
Não consigo me lembrar de nada.
Busco não uma cura, mas um alívio - um pouco de saúde. Ouvir as palavras certas - vindas de qualquer direção - é um descanso. Da mesma forma que a permissividade cultua vícios, a negação e o isolamento nos tornam menos humanos. O silêncio anda é uma forma de comunicação.
Tenho essa necessidade de conhecer cada ínfimo centímetro do outro, talvez na tentativa de me conhecer juntamente. Sou uma deficiente de coração, desconhecedora da minha própria alma. Da mesma forma, acredito que pessoas não estão terminadas como um livro - moldam-se, modificam, ganham novos cheiros e roteiros. Unir alguém e um destino imutável é uma ação extrínseca, até violenta. E quando encontramos quem compreenda essa metamorfose, rejeitamos. Por pura ignorância. Somos ensinados a subestimar quem entende. Desconfiamos. Também somos doutrinados para apreciar o que apresenta dificuldade, o que requer sacrifício; se algo de fato vale a pena, deve ser quase inalcançável. Tendemos a desvalorizar o que não está num pedestal distante.
No entanto, acredito que aquilo que surge sem explicação guarda em si o que há de mais interessante. Até hoje, tudo que vi ou vivi fruto de expectativas baseadas no dever-ser não renderam grandes finais. Por outro lado, das coisas mais bobas e inesperadas surgiram grandes rotas. E o que há nesse mundo mais bonito do que simplicidade?
Não consigo me lembrar de nada.
segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Tempo Perdido
Eu soube, naquele momento. Não tinha me enganado. A lembrança mais doce tornou-se também a mais triste. Agora já não existe mais razão, orgulho ou outra emoção racionalizada: sou toda coração. A metade de mim que era silêncio desintegrou-se quando me entreguei - e por essa redenção, passei a colecionar anseios e momentos.
Alguns demônios foram despertados dentro de mim - não se engane, todos temos - e eles sufocaram minhas reações por tempo demais. Não arrisco dizer ter a receita da cura, mas ao menos tenho encontrado quem é de bem, e cultiva um pouco de conforto pra calar o desespero.
Estou lendo antigos textos, ouvindo discos que já nem lembrava, tirando os álbuns velhos da estante. Tudo isso na esperança de recordar a vida que tive antes dessa bola de neve. Toda uma vida, antes de você. Adquiri você como vício, por escolha própria. Quero riscar no meu calendário os dias que passei em abstinência. Abstinência de você. Assumindo minha atonia. Não enxergo mais o propósito.
Hoje não queria pensar assim. Não vou. Quero dar um tempo dessa coisa chata de ser madura, que consome todo o meu tempo. Prefiro fazer história. Eu quero seu silêncio. Contraditório, não? Sempre lamentei seus dias monossilábicos. Mas hoje existem tantas outras linguaguens para fazermos uso. Hoje pra mim é carnaval. Quero desfilar a vida.
Ainda tem espaço - na casa, no coração. O tempo não me faz esquecer nada; só tira o inesquecível do foco. E quando eu lembro das palavras ditas, das não ditas, e algumas memórias em particular que vinculo à sentimentos reclusos, me dá uma saudade irracional de você.
Todas as formas de controle só trazem um amor vazio. Então não se surpreenda com um telefonema. Amanhã desperdiçaremos horas lamentando como fomos impulsivos. Mas hoje, só quero dançar com você.
Alguns demônios foram despertados dentro de mim - não se engane, todos temos - e eles sufocaram minhas reações por tempo demais. Não arrisco dizer ter a receita da cura, mas ao menos tenho encontrado quem é de bem, e cultiva um pouco de conforto pra calar o desespero.
Estou lendo antigos textos, ouvindo discos que já nem lembrava, tirando os álbuns velhos da estante. Tudo isso na esperança de recordar a vida que tive antes dessa bola de neve. Toda uma vida, antes de você. Adquiri você como vício, por escolha própria. Quero riscar no meu calendário os dias que passei em abstinência. Abstinência de você. Assumindo minha atonia. Não enxergo mais o propósito.
Hoje não queria pensar assim. Não vou. Quero dar um tempo dessa coisa chata de ser madura, que consome todo o meu tempo. Prefiro fazer história. Eu quero seu silêncio. Contraditório, não? Sempre lamentei seus dias monossilábicos. Mas hoje existem tantas outras linguaguens para fazermos uso. Hoje pra mim é carnaval. Quero desfilar a vida.
Ainda tem espaço - na casa, no coração. O tempo não me faz esquecer nada; só tira o inesquecível do foco. E quando eu lembro das palavras ditas, das não ditas, e algumas memórias em particular que vinculo à sentimentos reclusos, me dá uma saudade irracional de você.
Todas as formas de controle só trazem um amor vazio. Então não se surpreenda com um telefonema. Amanhã desperdiçaremos horas lamentando como fomos impulsivos. Mas hoje, só quero dançar com você.
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