Hoje eu vou estar só
Vou sair para não ter volta, e sorte de quem não estiver em minha volta
Solidão, corre que eu te alcanço! Hoje vai faltar carinho e vai sobrar carnaval
Mas não se preocupe não, amor
Que quando chegar a hora certa, eu volto.
O porquê eu já nem sei, esse lar não me completa
Mas não devemos nos encaixar como peças de um quebra-cabeças, devemos? Devemos nos bastar...
E eu voltarei não por precisar, e sim por querer! E não voltarei pela metade, voltarei inteira.
E quando eu cruzar a entrada, quero ouvir você cantar
"Quero ver a menina, (...)
O vestido... Toda vestida de flores lá vem a menina!
Quero estender um tapete vermelho pra ela."
terça-feira, 24 de maio de 2011
segunda-feira, 23 de maio de 2011
Fadados a Fingir
Hoje me dei o direito de estar chata.
Desculpa, mas não confio em gente que é feliz o tempo inteiro. Não acredito em sorrisos sinceros que duram semanas seguidas, e nem em doces palavras ditas em seqüência. Talvez por isso entendo e respeito todo e qualquer descontentamento, e os milhares de abusinhos da vida. Acredito piamente que cada um tem direito a um abusinho por dia. Mais ainda, se for um dia especialmente cansativo. Se você tiver batido o carro ou perder horas no trânsito. Se for mulher, são permitidos até dez abusinhos diários em caso de TPM.
Deveria existir um sinal, algo que indicasse a minha impaciência... Assim as pessoas estariam avisadas e não tentariam aproximação. Sim, eu moro no reino da inconveniência. E todos poderiam parar de me olhar como se eu estivesse devorando suas almas. Ou eu poderia aprender a não devorá-las.
Parece que a cada muxoxo, esse sentimento abocanha territórios cada vez maiores dentro de mim. E apesar de no fundo eu ter um coração lindo e simpático, não consigo evitar encarar as pessoas de forma que meus olhos falem algo como ‘‘sou decidida, determinada e inconseqüente. Sou rebelde.’’ A verdade é que eu finjo como uma adulta, mas sou vulnerável como uma garotinha. E isso é absolutamente natural - este senso de isolamento, de desvio, é um infeliz ritual adolescente. Mas nem sempre é assim.
Já houve um tempo em que realmente acreditei que tentar era o primeiro passo rumo ao fracasso. E que se a culpa de algo era minha, eu poderia colocá-la em quem quisesse. E que estávamos todos fadados ao fiasco. Mas aprendi que toda vez que algo nos falta, o invisível nos salta aos olhos.
Não se pode dizer que eu tenha desenvolvido uma paixão pelos holofotes; no entanto, não me sinto mais tão escassa, tão vazia. Sempre foram ações cada vez mais inseguras, cada vez mais falhas, cada vez menos ações. Mas, com aquele precioso remédio que cura quase tudo chamado tempo, você assimila que arriscar e cair não é tão ruim. O ruim é não arriscar. Nesse momento você entende o que realmente é beleza, e essa beleza atrai os ladrões mais que o ouro.
Desculpa, mas não confio em gente que é feliz o tempo inteiro. Não acredito em sorrisos sinceros que duram semanas seguidas, e nem em doces palavras ditas em seqüência. Talvez por isso entendo e respeito todo e qualquer descontentamento, e os milhares de abusinhos da vida. Acredito piamente que cada um tem direito a um abusinho por dia. Mais ainda, se for um dia especialmente cansativo. Se você tiver batido o carro ou perder horas no trânsito. Se for mulher, são permitidos até dez abusinhos diários em caso de TPM.
Deveria existir um sinal, algo que indicasse a minha impaciência... Assim as pessoas estariam avisadas e não tentariam aproximação. Sim, eu moro no reino da inconveniência. E todos poderiam parar de me olhar como se eu estivesse devorando suas almas. Ou eu poderia aprender a não devorá-las.
Parece que a cada muxoxo, esse sentimento abocanha territórios cada vez maiores dentro de mim. E apesar de no fundo eu ter um coração lindo e simpático, não consigo evitar encarar as pessoas de forma que meus olhos falem algo como ‘‘sou decidida, determinada e inconseqüente. Sou rebelde.’’ A verdade é que eu finjo como uma adulta, mas sou vulnerável como uma garotinha. E isso é absolutamente natural - este senso de isolamento, de desvio, é um infeliz ritual adolescente. Mas nem sempre é assim.
Já houve um tempo em que realmente acreditei que tentar era o primeiro passo rumo ao fracasso. E que se a culpa de algo era minha, eu poderia colocá-la em quem quisesse. E que estávamos todos fadados ao fiasco. Mas aprendi que toda vez que algo nos falta, o invisível nos salta aos olhos.
Não se pode dizer que eu tenha desenvolvido uma paixão pelos holofotes; no entanto, não me sinto mais tão escassa, tão vazia. Sempre foram ações cada vez mais inseguras, cada vez mais falhas, cada vez menos ações. Mas, com aquele precioso remédio que cura quase tudo chamado tempo, você assimila que arriscar e cair não é tão ruim. O ruim é não arriscar. Nesse momento você entende o que realmente é beleza, e essa beleza atrai os ladrões mais que o ouro.
sexta-feira, 20 de maio de 2011
O certo e o incerto
Não entendo ao certo o motivo, mas existe algo que me leva a optar por viver a vida que idealizo em detrimento daquela que está acontecendo, aqui e agora. Essa necessidade nunca cessa; quando finalmente alcanço o privilégio de estar em um daqueles momentos em que perco o sono repassando no meu íntimo, desperdiço aqueles preciosos segundos com novas fantasias. O que fazer quando por fim chego lá, mas este ‘‘lá’’ não está mais onde deveria estar? Se me parece confuso explicar, experimente imaginar como seria viver. Renunciamos aos nossos sonhos por medo de fracassar ou, pior ainda, de ter êxito.
Talvez seja produto do anseio de corresponder as expectativas criadas sobre mim. De tantas dúvidas, nasce uma angústia. Não me preocupo só em estar no rumo incerto, numa estrada tortuosa. Li certa vez que para vivermos uma vida criativa, temos que perder o receio de estarmos errados. Em teoria, soa absolutamente cabível, se encaixa perfeitamente. No entanto, a tarefa se torna mais árdua quando preciso não apenas libertar-me daquilo que me aflige, como também ignorar os dedos apontados em minha direção e as expressões que revelam uma verdade que não propicia encorajamento: ‘‘você não irá conseguir’’. Você também já sentiu. É claro que já. Todos nós já sentimos. Várias vezes... E ainda sentiremos outras tantas. Sempre haverá alguém para lembrar-nos o quanto podemos estar errados, e se estivermos, o quanto sofreremos por isso. E teremos que digerir combinações de palavras que irão soar exatamente como ‘‘eu bem que avisei’’. Na verdade, não teremos, mas iremos mesmo assim. Não gosto da responsabilidade de carregar em mim os sonhos de outros, não acredito que posso usurpar o lugar pertencente a um outro alguém... Não gosto do peso e do quanto pesa. Não gosto de nada que não seja meu, nada oriundo das frustrações alheias. Egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos.
E quando eu me perder no meio desse turbilhão de desilusões, sempre terá alguém para dar uma rasteira. Ou pior, fazer um carinho. E aí viverei em função desse carinho, e poderia jurar que estaria plenamente curada. Carinhos são como histórias contadas para distrair, para iludir. Carinhos são mentiras disfarçadas. Como diria Clarice Lispector, “porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar era fácil.”
Talvez seja produto do anseio de corresponder as expectativas criadas sobre mim. De tantas dúvidas, nasce uma angústia. Não me preocupo só em estar no rumo incerto, numa estrada tortuosa. Li certa vez que para vivermos uma vida criativa, temos que perder o receio de estarmos errados. Em teoria, soa absolutamente cabível, se encaixa perfeitamente. No entanto, a tarefa se torna mais árdua quando preciso não apenas libertar-me daquilo que me aflige, como também ignorar os dedos apontados em minha direção e as expressões que revelam uma verdade que não propicia encorajamento: ‘‘você não irá conseguir’’. Você também já sentiu. É claro que já. Todos nós já sentimos. Várias vezes... E ainda sentiremos outras tantas. Sempre haverá alguém para lembrar-nos o quanto podemos estar errados, e se estivermos, o quanto sofreremos por isso. E teremos que digerir combinações de palavras que irão soar exatamente como ‘‘eu bem que avisei’’. Na verdade, não teremos, mas iremos mesmo assim. Não gosto da responsabilidade de carregar em mim os sonhos de outros, não acredito que posso usurpar o lugar pertencente a um outro alguém... Não gosto do peso e do quanto pesa. Não gosto de nada que não seja meu, nada oriundo das frustrações alheias. Egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos.
E quando eu me perder no meio desse turbilhão de desilusões, sempre terá alguém para dar uma rasteira. Ou pior, fazer um carinho. E aí viverei em função desse carinho, e poderia jurar que estaria plenamente curada. Carinhos são como histórias contadas para distrair, para iludir. Carinhos são mentiras disfarçadas. Como diria Clarice Lispector, “porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar era fácil.”
sexta-feira, 6 de maio de 2011
Odeio pombos.
E odeio ficar presa no trânsito.
Odeio o som de unhas arranhando tecidos e odeio cheiro de grama recém cortada.
Odeio bebidas quentes no almoço, odeio quando minha unha prende na roupa.
Odeio chegar nos lugares cedo demais e odeio ficar mexendo no meu celular por não saber como agir.
Odeio perder as chaves. Odeio meus vizinhos ouvindo música ruim no último volume.
Odeio comer doces e sentir culpa depois. Na verdade, só odeio a culpa, e não o açúcar.
Odeio esnobismo. Odeio quem responde perguntas retóricas. Odeio refrigerante. Odeio ser ignorada.
Mas...
Eu tenho um amigo.
Com quem não me importaria de passar todo meu tempo livre.
Adoro suas piadas particulares. Adoro saber o que se passa em sua mente.
Adoro seu perfume e adoro suas camisas velhas.
Adoro seu guarda roupa bagunçado e adoro seu cabelo cacheado.
Adoro quando sua mão toca na minha.
Adoro o cheiro e o gosto de café forte.
Adoro ficar rouca. Adoro chuva no fim da tarde.
Adoro ficar só, mas odeio me sentir só.
Adoro ser lembrada quando acho que fui esquecida. Adoro mensagens antes de dormir.
Adoro o fato de você ter finalmente percebido. E de ter voltado.
E agora, não é só uma memória. Não é mais.
E odeio ficar presa no trânsito.
Odeio o som de unhas arranhando tecidos e odeio cheiro de grama recém cortada.
Odeio bebidas quentes no almoço, odeio quando minha unha prende na roupa.
Odeio chegar nos lugares cedo demais e odeio ficar mexendo no meu celular por não saber como agir.
Odeio perder as chaves. Odeio meus vizinhos ouvindo música ruim no último volume.
Odeio comer doces e sentir culpa depois. Na verdade, só odeio a culpa, e não o açúcar.
Odeio esnobismo. Odeio quem responde perguntas retóricas. Odeio refrigerante. Odeio ser ignorada.
Mas...
Eu tenho um amigo.
Com quem não me importaria de passar todo meu tempo livre.
Adoro suas piadas particulares. Adoro saber o que se passa em sua mente.
Adoro seu perfume e adoro suas camisas velhas.
Adoro seu guarda roupa bagunçado e adoro seu cabelo cacheado.
Adoro quando sua mão toca na minha.
Adoro o cheiro e o gosto de café forte.
Adoro ficar rouca. Adoro chuva no fim da tarde.
Adoro ficar só, mas odeio me sentir só.
Adoro ser lembrada quando acho que fui esquecida. Adoro mensagens antes de dormir.
Adoro o fato de você ter finalmente percebido. E de ter voltado.
E agora, não é só uma memória. Não é mais.
sábado, 23 de abril de 2011
Sugestão do dia
Eu e essa minha mania de conhecer uma coisa, me apaixonar imediatamente e ficar completamente viciada naquilo. Assiti hoje ''Por Uma Vida Melhor'' (Away We Go) e foi disparadamente o filme mais sincero que assisti nos últimos tempos!

O filme conta a história de um casal, Burt e , que após descobrirem que estavam ''grávidos'', procuram apoio no pais de Burt e futuros avós, uma vez que Verona é órfã desde a infância, e cresceu na companhia apenas de sua irmã. Preocupados com a necessidade de criar a futura filha (sim, é uma menina!) num ambiente onde a família esteja sempre presente, eles decidem visitar amigos e familiares que moram em várias partes do mundo para decidirem o melhor local para dar um lar ao bebê.

Burt e Verona passam por Phoenix, Madison, Miami e Montreal em busca de encontrarem o melhor lugar para iniciarem suas vidas em família. Nesse meio tempo, encontram familiares excêntricos, com maneiras nada comuns de educar seus filhos. Também se deparam com histórias emocionantes durante sua busca.

Com diálogos inteligentes - e diga-se de passagem, muito fofos! - o filme mostra exatamente como o amor deve ser: natural e verdadeiro, com muito afeto ao invés de cobranças (sem querer estabelecer nenhuma regra, mas já estabelecendo). A grande lição é que após tanto tempo, Burt e Verona finalmente descobrem o real significado da palavra lar. O filme é lindo e emocionante, vale muito a pena!

E claro, me apaixonei pelo John Krasinski, que interpreta o Burt. Além de ser um grande ator, a fofura do personagem ajudou!

A trilha sonora do filme também é fantástica, com muitas músicas do Alexi Murdoch. Essa aqui é a minha preferida:
http://www.youtube.com/watch?v=_R5IQoIYvTM
Perfeito para esse feriado cheio de chuva!

O filme conta a história de um casal, Burt e , que após descobrirem que estavam ''grávidos'', procuram apoio no pais de Burt e futuros avós, uma vez que Verona é órfã desde a infância, e cresceu na companhia apenas de sua irmã. Preocupados com a necessidade de criar a futura filha (sim, é uma menina!) num ambiente onde a família esteja sempre presente, eles decidem visitar amigos e familiares que moram em várias partes do mundo para decidirem o melhor local para dar um lar ao bebê.

Burt e Verona passam por Phoenix, Madison, Miami e Montreal em busca de encontrarem o melhor lugar para iniciarem suas vidas em família. Nesse meio tempo, encontram familiares excêntricos, com maneiras nada comuns de educar seus filhos. Também se deparam com histórias emocionantes durante sua busca.

Com diálogos inteligentes - e diga-se de passagem, muito fofos! - o filme mostra exatamente como o amor deve ser: natural e verdadeiro, com muito afeto ao invés de cobranças (sem querer estabelecer nenhuma regra, mas já estabelecendo). A grande lição é que após tanto tempo, Burt e Verona finalmente descobrem o real significado da palavra lar. O filme é lindo e emocionante, vale muito a pena!

E claro, me apaixonei pelo John Krasinski, que interpreta o Burt. Além de ser um grande ator, a fofura do personagem ajudou!

A trilha sonora do filme também é fantástica, com muitas músicas do Alexi Murdoch. Essa aqui é a minha preferida:
http://www.youtube.com/watch?v=_R5IQoIYvTM
Perfeito para esse feriado cheio de chuva!
terça-feira, 22 de março de 2011
Conversa de botas batidas
-E foi assim. Assim acabamos antes mesmo de começarmos de fato.
-Sempre digo isso: só se pode cobrar de um relacionamento quando realmente se está em um.
-Mas o que faltava? Para mim era tão claro e simples, tão nítido. Simplesmente existia, estava lá.
-Convenhamos, vocês não tinham muito em comum.
-Afinidade acontece.
-Afinidade é simpatia...
-E simpatia é quase amor!
-Cada um enxerga o que quer ver, eu acho.
-E agora eu estou com aquela sensação de que acabei de perder a última reserva de ar que eu tinha antes de me afogar. Já teve essa sensação?
-Já, e é assim mesmo. Acredita que até hoje não descobri como agir? Como se nada mais pudesse te trazer de volta a superfície.
-E onde eu me afundei?
-Acho que você tentou afogá-lo dentro de você. Com as incontáveis doses da noite passada, lembra?
-Reflexos. Mas as doses eu pude vomitar e expulsá-las de mim: e com esse sentimento, essa agonia, o que eu devo fazer? Não existe nenhum mecanismo do meu corpo que eu possa ativar e simplesmente jogar fora tudo que maltrata meu organismo, tudo que me consome por dentro. E consome pra caralho!
-Pra caralho!!!
-Toda pessoa de cabelo cheio que entrava eu achava que era ele. Assim como acho quando estou na rua, no supermercado, na fila do cinema, dormindo. Virei uma caçadora de pessoas cacheadas. Virei uma caçadora dele em todas as pessoas.
- É o mesmo princípio da tatuagem: Só o que dói, só o que sangra fica pra sempre.
-Então ficará para sempre?
-Talvez. É como dizem, todo sopro que apaga uma chama, reacende o que for pra ficar.
-É um sentimento de...
-Perda?
-É. Misturado com uma incapacidade, um desejo de mudar tudo, mas estou com as mãos atadas.
-Mas não está.
-Mas é assim que eu me sinto, e vivendo essa perspectiva eu posso livremente culpar o destino ou qualquer outra entidade sobrenatural que comande a história dos homens.
-Isso se chama covardia.
-Talvez. Ou fé.
-Isso tudo pelo rapaz da outra rua?
-É.
-Aquele com olhos cor de âmbar?
-Sim.
-Que gostava de você?
-Sim.
-E você não gostava?
-É.
-E agora gosta?
-É.
-E agora ele está com outra?
-Sim.
-E qual o motivo de você tê-lo deixado ir?
-Não existe um monossílabo para responder isso!
Silêncio.
Por isso para dar certo é necessário verdade. Isso, coloque verdade, em doses imensas. Inclua frases como: “já viu como a lua está linda hoje?” ou “eu adoro dias frios” ou “hahaha”, mas, principalmente, esta: “gostou? Fui eu que fiz”.
E principalmente, o entregue a uma só pessoa. E não faça dessa pessoa o seu mundo inteiro, mas pelo menos preencha partes enormes com ela. E isso será chamado amor.
-Sempre digo isso: só se pode cobrar de um relacionamento quando realmente se está em um.
-Mas o que faltava? Para mim era tão claro e simples, tão nítido. Simplesmente existia, estava lá.
-Convenhamos, vocês não tinham muito em comum.
-Afinidade acontece.
-Afinidade é simpatia...
-E simpatia é quase amor!
-Cada um enxerga o que quer ver, eu acho.
-E agora eu estou com aquela sensação de que acabei de perder a última reserva de ar que eu tinha antes de me afogar. Já teve essa sensação?
-Já, e é assim mesmo. Acredita que até hoje não descobri como agir? Como se nada mais pudesse te trazer de volta a superfície.
-E onde eu me afundei?
-Acho que você tentou afogá-lo dentro de você. Com as incontáveis doses da noite passada, lembra?
-Reflexos. Mas as doses eu pude vomitar e expulsá-las de mim: e com esse sentimento, essa agonia, o que eu devo fazer? Não existe nenhum mecanismo do meu corpo que eu possa ativar e simplesmente jogar fora tudo que maltrata meu organismo, tudo que me consome por dentro. E consome pra caralho!
-Pra caralho!!!
-Toda pessoa de cabelo cheio que entrava eu achava que era ele. Assim como acho quando estou na rua, no supermercado, na fila do cinema, dormindo. Virei uma caçadora de pessoas cacheadas. Virei uma caçadora dele em todas as pessoas.
- É o mesmo princípio da tatuagem: Só o que dói, só o que sangra fica pra sempre.
-Então ficará para sempre?
-Talvez. É como dizem, todo sopro que apaga uma chama, reacende o que for pra ficar.
-É um sentimento de...
-Perda?
-É. Misturado com uma incapacidade, um desejo de mudar tudo, mas estou com as mãos atadas.
-Mas não está.
-Mas é assim que eu me sinto, e vivendo essa perspectiva eu posso livremente culpar o destino ou qualquer outra entidade sobrenatural que comande a história dos homens.
-Isso se chama covardia.
-Talvez. Ou fé.
-Isso tudo pelo rapaz da outra rua?
-É.
-Aquele com olhos cor de âmbar?
-Sim.
-Que gostava de você?
-Sim.
-E você não gostava?
-É.
-E agora gosta?
-É.
-E agora ele está com outra?
-Sim.
-E qual o motivo de você tê-lo deixado ir?
-Não existe um monossílabo para responder isso!
Silêncio.
Por isso para dar certo é necessário verdade. Isso, coloque verdade, em doses imensas. Inclua frases como: “já viu como a lua está linda hoje?” ou “eu adoro dias frios” ou “hahaha”, mas, principalmente, esta: “gostou? Fui eu que fiz”.
E principalmente, o entregue a uma só pessoa. E não faça dessa pessoa o seu mundo inteiro, mas pelo menos preencha partes enormes com ela. E isso será chamado amor.
terça-feira, 15 de março de 2011
Carta à Amizade Colorida
Olhe, não acho que a melhor forma de se iniciar uma carta seja lançando críticas ao destinatário, mas você fez por merecer. Nós duas sabemos como a sua chegada, quase sempre silenciosa, tem efeitos bem mais dolorosos do que aparenta.
Sim, eu sei. Existe – e sempre existirá – a desculpa na qual você se esconde: era só amizade. Mas na verdade, ambas conhecemos as conseqüências dos seus atos impensados. Ora, amizade e amor já são sentimentos tão absurdamente confusos se pensados isoladamente, e a senhorita os junta por puro prazer! Que justiça há nisso?
Aposto que você tem apoio de outro rapazinho que faz graça das sensações que provoca nos homens e mulheres: o Tesão. Sim, ele mesmo. Esse tolo inconseqüente que é capaz de deixar-nos embaraçados na frente de nossos chefes, vizinhos, primos e sabe-se lá quem será a próxima vítima. E aparece sem aviso prévio: seu ataque pode chegar em pleno almoço de domingo, na ceia de natal e, Deus me perdoe – até na Igreja! Somos meras marionetes humanas sujeitas ao seu repentino aparecimento.
Gostaria de saber também se a Depressão não se manifesta diante de tal comportamento abusivo. Afinal, a Depressão é uma senhora cansada, e é de conhecimento geral que quando o Tesão nos leva a fazer coisas impulsivas, o que nos resta depois da diversão é só a dor. E aí vem o trio que cerca os corações aflitos: a Desesperança, a Mágoa e o Medo. Este último nos faz mergulhar em calabouços e armadilhas articuladas pela nossa própria mente, tão propensa a imaginar finais felizes em situações onde não existe espaço para estes. E quando nos damos conta da arapuca em que nos metemos... Simplesmente não há o que fazer. Foi tudo tão rápido, tão claro, tão simples... Como respirar. Como se vê, simples começa com ‘sim’, e essa aceitação é o necessário para levar fantasias com finais trágicos adiante. Essa miopia seletiva, esse daltonismo afetivo...
Ainda estou na puberdade mental, meu cérebro ainda está mudando de voz, deve ser isso.
É um mal terrível da nossa geração, não é? Refiro-me a essa máscara inerente ao comportamento humano que está cada vez mais entranhada na nossa personalidade. Fingimos o que não sentimos e sentimos o que fingimos; essa ciranda que sempre termina em dor, dor e mais dor. E assim, disfarçando interesses sinceros por trás da suposta ‘’amizade colorida’’ penetramos cada vez mais num submundo unilateral, onde uma das partes realmente ama o todo, e não pela metade, e a outra ama apenas o jogo.
Então aqui vai um apelo: eu sei, você ainda é nova e inexperiente. Tem muitos anos pela frente para perder tempo desapontando-se com a falta de honestidade presente nas relações afetivas. Por isso que eu peço, por carregar o peso da vivência humana: mantenha-se longe. Porque a excitação do princípio não supera o sofrimento do fim. Sim, existem os raros casos em que de você, cara amizade colorida, surgem amores duradouros. Mas não estamos trabalhando estatisticamente, não é? Sejamos objetivas; sua presença traz em abundância dor e solidão, mesclada com pequenos focos de satisfação e contentamento.
Se você acha que algum pobre coração cairá nas suas garras, vá em frente. Não é a fria lógica dos seus argumentos que irá guiar o meu daqui por diante. Quero ver a vida por outros olhos, que não os seus. Quero beber por outros motivos, que não afogar você dentro de mim. Vá resolver as suas carências em outro endereço.
E como diz um sábio verso bem conhecido, ''não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais''.
Sim, eu sei. Existe – e sempre existirá – a desculpa na qual você se esconde: era só amizade. Mas na verdade, ambas conhecemos as conseqüências dos seus atos impensados. Ora, amizade e amor já são sentimentos tão absurdamente confusos se pensados isoladamente, e a senhorita os junta por puro prazer! Que justiça há nisso?
Aposto que você tem apoio de outro rapazinho que faz graça das sensações que provoca nos homens e mulheres: o Tesão. Sim, ele mesmo. Esse tolo inconseqüente que é capaz de deixar-nos embaraçados na frente de nossos chefes, vizinhos, primos e sabe-se lá quem será a próxima vítima. E aparece sem aviso prévio: seu ataque pode chegar em pleno almoço de domingo, na ceia de natal e, Deus me perdoe – até na Igreja! Somos meras marionetes humanas sujeitas ao seu repentino aparecimento.
Gostaria de saber também se a Depressão não se manifesta diante de tal comportamento abusivo. Afinal, a Depressão é uma senhora cansada, e é de conhecimento geral que quando o Tesão nos leva a fazer coisas impulsivas, o que nos resta depois da diversão é só a dor. E aí vem o trio que cerca os corações aflitos: a Desesperança, a Mágoa e o Medo. Este último nos faz mergulhar em calabouços e armadilhas articuladas pela nossa própria mente, tão propensa a imaginar finais felizes em situações onde não existe espaço para estes. E quando nos damos conta da arapuca em que nos metemos... Simplesmente não há o que fazer. Foi tudo tão rápido, tão claro, tão simples... Como respirar. Como se vê, simples começa com ‘sim’, e essa aceitação é o necessário para levar fantasias com finais trágicos adiante. Essa miopia seletiva, esse daltonismo afetivo...
Ainda estou na puberdade mental, meu cérebro ainda está mudando de voz, deve ser isso.
É um mal terrível da nossa geração, não é? Refiro-me a essa máscara inerente ao comportamento humano que está cada vez mais entranhada na nossa personalidade. Fingimos o que não sentimos e sentimos o que fingimos; essa ciranda que sempre termina em dor, dor e mais dor. E assim, disfarçando interesses sinceros por trás da suposta ‘’amizade colorida’’ penetramos cada vez mais num submundo unilateral, onde uma das partes realmente ama o todo, e não pela metade, e a outra ama apenas o jogo.
Então aqui vai um apelo: eu sei, você ainda é nova e inexperiente. Tem muitos anos pela frente para perder tempo desapontando-se com a falta de honestidade presente nas relações afetivas. Por isso que eu peço, por carregar o peso da vivência humana: mantenha-se longe. Porque a excitação do princípio não supera o sofrimento do fim. Sim, existem os raros casos em que de você, cara amizade colorida, surgem amores duradouros. Mas não estamos trabalhando estatisticamente, não é? Sejamos objetivas; sua presença traz em abundância dor e solidão, mesclada com pequenos focos de satisfação e contentamento.
Se você acha que algum pobre coração cairá nas suas garras, vá em frente. Não é a fria lógica dos seus argumentos que irá guiar o meu daqui por diante. Quero ver a vida por outros olhos, que não os seus. Quero beber por outros motivos, que não afogar você dentro de mim. Vá resolver as suas carências em outro endereço.
E como diz um sábio verso bem conhecido, ''não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais''.
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