Não entendo ao certo o motivo, mas existe algo que me leva a optar por viver a vida que idealizo em detrimento daquela que está acontecendo, aqui e agora. Essa necessidade nunca cessa; quando finalmente alcanço o privilégio de estar em um daqueles momentos em que perco o sono repassando no meu íntimo, desperdiço aqueles preciosos segundos com novas fantasias. O que fazer quando por fim chego lá, mas este ‘‘lá’’ não está mais onde deveria estar? Se me parece confuso explicar, experimente imaginar como seria viver. Renunciamos aos nossos sonhos por medo de fracassar ou, pior ainda, de ter êxito.
Talvez seja produto do anseio de corresponder as expectativas criadas sobre mim. De tantas dúvidas, nasce uma angústia. Não me preocupo só em estar no rumo incerto, numa estrada tortuosa. Li certa vez que para vivermos uma vida criativa, temos que perder o receio de estarmos errados. Em teoria, soa absolutamente cabível, se encaixa perfeitamente. No entanto, a tarefa se torna mais árdua quando preciso não apenas libertar-me daquilo que me aflige, como também ignorar os dedos apontados em minha direção e as expressões que revelam uma verdade que não propicia encorajamento: ‘‘você não irá conseguir’’. Você também já sentiu. É claro que já. Todos nós já sentimos. Várias vezes... E ainda sentiremos outras tantas. Sempre haverá alguém para lembrar-nos o quanto podemos estar errados, e se estivermos, o quanto sofreremos por isso. E teremos que digerir combinações de palavras que irão soar exatamente como ‘‘eu bem que avisei’’. Na verdade, não teremos, mas iremos mesmo assim. Não gosto da responsabilidade de carregar em mim os sonhos de outros, não acredito que posso usurpar o lugar pertencente a um outro alguém... Não gosto do peso e do quanto pesa. Não gosto de nada que não seja meu, nada oriundo das frustrações alheias. Egoísmo não é viver à nossa maneira, mas desejar que os outros vivam como nós queremos.
E quando eu me perder no meio desse turbilhão de desilusões, sempre terá alguém para dar uma rasteira. Ou pior, fazer um carinho. E aí viverei em função desse carinho, e poderia jurar que estaria plenamente curada. Carinhos são como histórias contadas para distrair, para iludir. Carinhos são mentiras disfarçadas. Como diria Clarice Lispector, “porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar era fácil.”
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