Olhe, não acho que a melhor forma de se iniciar uma carta seja lançando críticas ao destinatário, mas você fez por merecer. Nós duas sabemos como a sua chegada, quase sempre silenciosa, tem efeitos bem mais dolorosos do que aparenta.
Sim, eu sei. Existe – e sempre existirá – a desculpa na qual você se esconde: era só amizade. Mas na verdade, ambas conhecemos as conseqüências dos seus atos impensados. Ora, amizade e amor já são sentimentos tão absurdamente confusos se pensados isoladamente, e a senhorita os junta por puro prazer! Que justiça há nisso?
Aposto que você tem apoio de outro rapazinho que faz graça das sensações que provoca nos homens e mulheres: o Tesão. Sim, ele mesmo. Esse tolo inconseqüente que é capaz de deixar-nos embaraçados na frente de nossos chefes, vizinhos, primos e sabe-se lá quem será a próxima vítima. E aparece sem aviso prévio: seu ataque pode chegar em pleno almoço de domingo, na ceia de natal e, Deus me perdoe – até na Igreja! Somos meras marionetes humanas sujeitas ao seu repentino aparecimento.
Gostaria de saber também se a Depressão não se manifesta diante de tal comportamento abusivo. Afinal, a Depressão é uma senhora cansada, e é de conhecimento geral que quando o Tesão nos leva a fazer coisas impulsivas, o que nos resta depois da diversão é só a dor. E aí vem o trio que cerca os corações aflitos: a Desesperança, a Mágoa e o Medo. Este último nos faz mergulhar em calabouços e armadilhas articuladas pela nossa própria mente, tão propensa a imaginar finais felizes em situações onde não existe espaço para estes. E quando nos damos conta da arapuca em que nos metemos... Simplesmente não há o que fazer. Foi tudo tão rápido, tão claro, tão simples... Como respirar. Como se vê, simples começa com ‘sim’, e essa aceitação é o necessário para levar fantasias com finais trágicos adiante. Essa miopia seletiva, esse daltonismo afetivo...
Ainda estou na puberdade mental, meu cérebro ainda está mudando de voz, deve ser isso.
É um mal terrível da nossa geração, não é? Refiro-me a essa máscara inerente ao comportamento humano que está cada vez mais entranhada na nossa personalidade. Fingimos o que não sentimos e sentimos o que fingimos; essa ciranda que sempre termina em dor, dor e mais dor. E assim, disfarçando interesses sinceros por trás da suposta ‘’amizade colorida’’ penetramos cada vez mais num submundo unilateral, onde uma das partes realmente ama o todo, e não pela metade, e a outra ama apenas o jogo.
Então aqui vai um apelo: eu sei, você ainda é nova e inexperiente. Tem muitos anos pela frente para perder tempo desapontando-se com a falta de honestidade presente nas relações afetivas. Por isso que eu peço, por carregar o peso da vivência humana: mantenha-se longe. Porque a excitação do princípio não supera o sofrimento do fim. Sim, existem os raros casos em que de você, cara amizade colorida, surgem amores duradouros. Mas não estamos trabalhando estatisticamente, não é? Sejamos objetivas; sua presença traz em abundância dor e solidão, mesclada com pequenos focos de satisfação e contentamento.
Se você acha que algum pobre coração cairá nas suas garras, vá em frente. Não é a fria lógica dos seus argumentos que irá guiar o meu daqui por diante. Quero ver a vida por outros olhos, que não os seus. Quero beber por outros motivos, que não afogar você dentro de mim. Vá resolver as suas carências em outro endereço.
E como diz um sábio verso bem conhecido, ''não imagine que te quero mal, apenas não te quero mais''.
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