terça-feira, 22 de março de 2011

Conversa de botas batidas

-E foi assim. Assim acabamos antes mesmo de começarmos de fato.
-Sempre digo isso: só se pode cobrar de um relacionamento quando realmente se está em um.
-Mas o que faltava? Para mim era tão claro e simples, tão nítido. Simplesmente existia, estava lá.
-Convenhamos, vocês não tinham muito em comum.
-Afinidade acontece.
-Afinidade é simpatia...
-E simpatia é quase amor!
-Cada um enxerga o que quer ver, eu acho.
-E agora eu estou com aquela sensação de que acabei de perder a última reserva de ar que eu tinha antes de me afogar. Já teve essa sensação?
-Já, e é assim mesmo. Acredita que até hoje não descobri como agir? Como se nada mais pudesse te trazer de volta a superfície.
-E onde eu me afundei?
-Acho que você tentou afogá-lo dentro de você. Com as incontáveis doses da noite passada, lembra?
-Reflexos. Mas as doses eu pude vomitar e expulsá-las de mim: e com esse sentimento, essa agonia, o que eu devo fazer? Não existe nenhum mecanismo do meu corpo que eu possa ativar e simplesmente jogar fora tudo que maltrata meu organismo, tudo que me consome por dentro. E consome pra caralho!
-Pra caralho!!!
-Toda pessoa de cabelo cheio que entrava eu achava que era ele. Assim como acho quando estou na rua, no supermercado, na fila do cinema, dormindo. Virei uma caçadora de pessoas cacheadas. Virei uma caçadora dele em todas as pessoas.
- É o mesmo princípio da tatuagem: Só o que dói, só o que sangra fica pra sempre.
-Então ficará para sempre?
-Talvez. É como dizem, todo sopro que apaga uma chama, reacende o que for pra ficar.
-É um sentimento de...
-Perda?
-É. Misturado com uma incapacidade, um desejo de mudar tudo, mas estou com as mãos atadas.
-Mas não está.
-Mas é assim que eu me sinto, e vivendo essa perspectiva eu posso livremente culpar o destino ou qualquer outra entidade sobrenatural que comande a história dos homens.
-Isso se chama covardia.
-Talvez. Ou fé.
-Isso tudo pelo rapaz da outra rua?
-É.
-Aquele com olhos cor de âmbar?
-Sim.
-Que gostava de você?
-Sim.
-E você não gostava?
-É.
-E agora gosta?
-É.
-E agora ele está com outra?
-Sim.
-E qual o motivo de você tê-lo deixado ir?
-Não existe um monossílabo para responder isso!
Silêncio.
Por isso para dar certo é necessário verdade. Isso, coloque verdade, em doses imensas. Inclua frases como: “já viu como a lua está linda hoje?” ou “eu adoro dias frios” ou “hahaha”, mas, principalmente, esta: “gostou? Fui eu que fiz”.
E principalmente, o entregue a uma só pessoa. E não faça dessa pessoa o seu mundo inteiro, mas pelo menos preencha partes enormes com ela. E isso será chamado amor.

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