terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Só mais um texto

Estava sentada, escrevendo de novo sobre algo que não conheço, por ver através dos olhos de outra pessoa. É bom sair de si e enxergar além daquilo que está preso dentro de nós, daquilo que sabemos, do que estamos acostumados. A sutil diferença entre supor e experimentar. ''O abismo que é pensar e sentir.''

Pode parecer ceticismo, mas não é falta de amor: é a sobra dele! É amor próprio, em doses infinitas. Acredito no trânsito entre pessoas em nossas vidas, no movimento daquelas que se esvaem e daquelas que permanecem, garantindo que o coração esteja sempre cheio. Já me adjetivaram de várias formas. Mal resolvida, concordo. Mal lida, concordo. Mal repassada, aceito. Mas precisamos dessas lacunas, desses espacinhos que nunca foram preenchidos por perdermos o momento ideal, para continuarmos nos sentindo vivos. Ninguém encontra a plenitude tão cedo. Precisamos de um estímulo, de um motivo pelo qual viver valeria a pena.

Como já foi dito por outra boca, somos feitos de silêncio e som. Somos detentores da nossa própria verdade. Falar é uma insanidade, quase uma patologia... É vontade de viver até a última gota. Guardar me deixa submersa, perco o acesso a mim. Essa minha característica de ser mais minha do que de qualquer outro alguém tem que ajudado, no geral, durante minha vida. Mas no departamento do que sentimos - falo apenas em sentimento porque não sei nomear o pouco que restou - ela é uma burra. E quando esse sentimento está disfarçado de um nome próprio, o cuidado é redobrado. Tudo que é unilateral, por mais que possa doer, tem cura rápida. Tudo que é recíproco, por mais que eu possa me doar, tem efeitos maiores.

Por isso tento me lembrar do que me disseram uma vez. ''Você é gente, Gabriella. E gente também sofre.''

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Conversa

-Como é que a gente faz para jogar fora o que está preso?
-Não sei. Já pensou em limpar o armário?
-Fiz isso da última vez. Mas agora é diferente, sabe?
-Não. Nunca fui capaz de entender. Pode me explicar, por favor?
-Vou tentar. Será que isso vai me ajudar a entender?
-Já pensou em experimentar?
-Não gosto da quantidade de interrogações neste diálogo.
-Também não gosto. Esperava que você tivesse aprendido a pontuar as dúvidas, depois de tudo.
-Ainda não aprendi! Sabe, sou leiga nesses assuntos do coração. Estou fora desse departamento.
-Então assume essa incompetência?
-Que absurdo! Despejo meus problemas e só o que recebo são críticas. Pensei que sua função fosse me tranquilizar.
-Sou sua consciência, não seu calmante. Aliás, você tomou quantos noite retrasada?
-Nenhum. Desmaiei por puro cansaço! Sabe quando você adormece por desistir de tentar achar o fim de um círculo?
-Sei. Mas você pode sempre transformá-lo num quadrado, não pode? E qual o porquê de tudo isso?
-"Porque nem sempre".
-Nem sempre o quê?
-Não sei.
-Bem, esqueça. Você estava prestes a me esclarecer algo.
-É verdade. Ah, da outra vez tudo era uma bagunça aqui fora. Tinha tanta coisa acumulada que eu mal conseguia enxergar direito! Como se uma greve de lixeiros tivesse deixado todo esse lixo acumulado na minha calçada. A luz deformava e a cor enganava... Mas agora eu sei o que eu quero enxergar. Abri as janelas, já consigo respirar de novo.
-E dessa vez, qual é o problema?
-Agora está tudo errado aqui dentro. É o pior dos dilemas! Pior que se entrevar. Mas não dá pra organizar as coisas do lado de dentro, dá?
-Talvez. Num processo cirúrgico. Talvez um médico possa curar você.
-De que forma? Expurgar um câncer?
-É. Rasgar teu corpo pra costurar teu coração.
-E qual o meu diagnóstico?
-O mesmo de sempre, boba. Você é uma viciada.
-Em culpa, em dor ou no inalcançável?
-Entre outras coisas mais.
-Que outras coisas? Odeio esse mistério. Não quero essa angústia que faz de mim uma exaltada. Isso faz os batimentos cardíacos gemerem, falharem em sua arquitetura. Eu preciso entender! Quero entender!
-Toda essa preocupação em entender quando esse é o menor dos problemas. Já diria Clarice, "viver utrapasssa o entendimento".
-Isso parece clichê. Não somos clichê. Somos a doença perfeita.
-O mundo é clichê. O que você acha? Que tudo isso é exclusividade da sua cabeça? Não se sinta importante assim. As histórias se repetem, o tempo inteiro. Os dramas são os mesmos. Abismais.
-Dramas são para casais. Nós, não. Nós não somos nada.
-E também são muita coisa.
-É. Somos.
Pausa.
-Acho que é hora de ir.
-Você já vai? Olhou no relógio e se deu conta, ou alguém lhe disse isso?
-Não adianta mais ficar aqui. Você disse que não adiantaria tentar entender, não disse?
-De fato. Ainda assim, você não devia ir. Está tornando-se mais e mais fugidia.
-O que me prenderia aqui, então?
-Será que eu preciso explicar tudo? Você não tem que procurar entender, menina. O que você precisa fazer é decidir.

domingo, 4 de dezembro de 2011

''Dou-te mais uma vez.''

Certas coisas são tão nítidas que é de se lamentar o quanto demoramos pra entender. E ainda deve existir muito a ser decodificado por aqui. Nascemos completos o suficiente para nos bastarmos, mas não inteiros a ponto de nos limitarmos. Toda vez que negamos algo que em nosso interior desejamos, uma porção do porvir nos é roubado. Então entendi que talvez minha vida não seja caótica. Talvez o mundo seja caótico e a ruína dentro de mim seja meu íntimo implorando por um pedaço de sanidade.

Ao mesmo tempo, pensamentos opostos ladeiam-se tantas e tantas vezes. Extremos, dançam como pêndulos. E alternam-se como posições de um carrossel. Todas as minhas preces são destinadas para um mesmo propósito: que os anos não varram minhas lembranças e eu não pense onde estaríamos se tivesse pego sua mão. Porque se a certeza fere, a dúvida alucina.

Sou grata por encontrar depois das minhas pernas dois pés que me alicerçam ao chão, quase cimentados. Não me impedem de sonhar, mas minimizam o penar. Sei que essa coisa de ser ser humano é sofrida, mas não pretendo padecer tão cedo.

Presa no abismo entre sentir e pensar, não existe escolha certa. Talvez tenha procurado essa linha de fogo. Talvez a tenha atraído como um ímã. Partiremos do concreto rumo ao incerto. O que atormenta. Mas tudo bem, isso de tirar a paz sempre me interessou. Enterrei alguns medos e abri mão dos meus temores; não é assim que ensinaram que a gente tinha que fazer pra ser feliz?

Quero me adaptar como um camaleão a tudo aquilo que meu coração clamar.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Acaso

Hoje conheci um velho amigo.

Não, não existe nenhum erro na frase acima. Foi exatamente o que quis dizer. Talvez a interpretação demore a vir corretamente, então dê-me a chance de esclarecer meus pensamentos; tenho essa mania de falar – ou melhor, escrever – como se o que estivesse cravado em meu íntimo fosse também exposto para os demais. Na verdade, o reconheci. Raras são as ocasiões em que as pessoas relacionam-se com outras, de carne, osso e coração – normalmente, interagimos com projeções, produtos perfeitos de nossa imaginação fantasiosa. Dessa forma, evoluímos um quadro de afeição para amor em segundos; certo alguém é tão alegre, vivo e espirituoso! Parece absurdo que tenha demorado tanto para encontra-lo. Alguém tão milimetricamente desenvolvido para mim. Com todas minhas mínimas exigências e desejos atendidos. Até as imperfeições feitas sob medida; a risada rouca e o humor ácido. Aquilo que vai me tirar do sério e trazer a loucura necessária – o descanso do perfeito. Todos precisamos de alguém para nos enlouquecer. Esqueça o sexo, a língua e a tradição - só duas coisas nesse mundo são capazes de nos igualar: o amor e a loucura. O que é quase um pleonasmo.

Voltamos a minha mais recente descoberta. Meu querido desconhecido. De longa data.

Tenho essa estranha mania, quase uma síndrome, de explicar-me para estranhos. Bem, talvez nem tanto, talvez – num mundo no qual as coisas façam sentido e eu não seja apenas mais uma alma atormentada que sente saudade sabe-se lá do quê e lancha aspirina – eu apenas soubesse que ele não era apenas um qualquer que eu conheci num café, mesmo que fosse. Droga, isso soa brega. Pulando o momento constrangedor no qual confundo um simples encontro casual com algum evento cósmico e sobrenatural (ou pior ainda, uma ocasião escrita por alguma entidade espiritual – isso porque não consigo ser mesquinha o suficiente para acreditar que Deus estivesse desperdiçando seus divinos segundos preciosos com minhas besteiras mundanas), o fato é que em um momento estava perguntando se aquele era um livro de Anne Rice e no momento seguinte estávamos discutindo sobre as concepções do mundo moderno. E aquilo parecia fantasticamente certo. Como deve parecer.

Talvez devesse ser assim. A sutil diferença de ler uma coisa nos livros, vê-la nos filmes e de fato vivenciá-la. Refiro-me à inconsistência – não aquela que simula a admiração, mas aquela que avassala o sentir. Não quero uma alusão à ilusão dos que acreditam em momentos e corações destinados, mas vai um aviso aos desencontrados: o que tem que surgir, surge.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Diamante

Escrevi alguns versos tortos pensando bastar para que você retorne. O peso de algumas palavras não ditas surtia efeito; precisava dizer que sentia falta. Precisava dizer que gostava. O quanto gostava. Das conversas, da paz que me traz, do modo como seu sorriso imobiliza e derrete até os corações mais frígidos. Apenas dizer que te tinha apreço - pode ser por mais um dia, um mês, um ano ou várias vidas. Já sei que me dôo demais e dôo por dentro; aceito o fim só por hoje. Ou partir de hoje. O tormento que me causava sempre foi como apnéia - tira o sossego, a calma e a respiração. Lidei com duas faces: só o tinha em minha ausência e só me achava em sua presença. Sendo assim, chamei-o diamante - cegou-me os olhos e tornou-se foco - fez com que se tornasse belo, nosso, tornou-se assim nosso elo. Diamante que é a pedra mais dura e resistente, e deriva do grego "inconquistável". Era você, fixo em seu pedestal, três andares acima de mim. Hoje vejo que essa suposta superioridade ruiu, como roda-viva. Inteira, vejo com mais clareza. Não foi a recusa do convívio que me trouxe paz; meus valores, mesmo quando colocados contra os seus, se situavam também a partir deles. Não, foi algo a mais. Foi amor próprio. E agora você me chama. Já tracei um novo caminho, vejo a estupidez de retornar alguns passos. Uma vez experimentada, essa liberdade me ganhou... Só não entendo o porquê do só me querer tão só. Posso ser mais minha?

Como disse, "não imagine que te quero mal. Apenas não te quero mais."

sábado, 22 de outubro de 2011

-

Arde, mas não queima.
Você quer sumir, fugir. Desaparecer por uns instantes. Habitar qualquer corpo que não seja o seu. Porque ser você naquele momento dói, e pedir para que continue vivendo parece exigir demais. Você reza para fechar os olhos e calar a mente.
Mas não consegue silenciar o coração; esse grita. Você trava uma batalha instintiva entre o racional e o emocional. Espera uma atitude heróica, mas ao mesmo tempo sabe que ela não virá.
Quer arrancar a pele, desconectar os pensamentos. Quer coisas demais. Nem sabe mais o que quer.
Tenta convencer-se que pode viver muito bem sem aquele amor. Que agora é mais feliz. Que encontrou a sua paz. Internamente, o peito esbraveja o contrário.
Não se engane, meu caro. Isso é ciúme.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Nesses dias amenos que a gente se sente pequena. Um ponto meio sem rumo, sem direção certa a seguir. Cada vez mais interrogações, cada vez menos tentativas. Não encontro dentro de mim meu complemento, o instrumento adequado para calar as dúvidas. A alma está no corpo como um cárcere; não são mais partes de um quebra-cabeça.

Busco não uma cura, mas um alívio - um pouco de saúde. Ouvir as palavras certas - vindas de qualquer direção - é um descanso. Da mesma forma que a permissividade cultua vícios, a negação e o isolamento nos tornam menos humanos. O silêncio anda é uma forma de comunicação.

Tenho essa necessidade de conhecer cada ínfimo centímetro do outro, talvez na tentativa de me conhecer juntamente. Sou uma deficiente de coração, desconhecedora da minha própria alma. Da mesma forma, acredito que pessoas não estão terminadas como um livro - moldam-se, modificam, ganham novos cheiros e roteiros. Unir alguém e um destino imutável é uma ação extrínseca, até violenta. E quando encontramos quem compreenda essa metamorfose, rejeitamos. Por pura ignorância. Somos ensinados a subestimar quem entende. Desconfiamos. Também somos doutrinados para apreciar o que apresenta dificuldade, o que requer sacrifício; se algo de fato vale a pena, deve ser quase inalcançável. Tendemos a desvalorizar o que não está num pedestal distante.

No entanto, acredito que aquilo que surge sem explicação guarda em si o que há de mais interessante. Até hoje, tudo que vi ou vivi fruto de expectativas baseadas no dever-ser não renderam grandes finais. Por outro lado, das coisas mais bobas e inesperadas surgiram grandes rotas. E o que há nesse mundo mais bonito do que simplicidade?

Não consigo me lembrar de nada.