Não é você.
Queria deixar isso mais do que claro, assim não restarão dúvidas entre nós. E poderemos finalmente romper essa ligação doentia que insistimos em fazer perdurar. Francamente, não é você.
Tampouco, não se engane – não sou eu. Apesar de tender a assumir os nossos erros, e não só os meus, não suporto o peso. E como pesa! As toneladas de sarcasmo, incompreensão e deslealdade me fizeram sucumbir. Fizeram-nos sucumbir. Sendo assim, vamos promover o desapego. A saída benéfica que procuramos por tanto tempo, a solução para todos os confrontos, a voz para todos os silêncios.
Eu sei, questiono demais as coisas. Mas eu nunca questionei se eu amei. Dentre todas as interrogações que circundavam meus pensamentos, nunca hesitei em assumir essa verdade incontestável. No entanto, incontáveis foram as vezes em que me perguntei se o tive. Então reuni todas as evidências, todos os momentos partilhados, e não só os recheados de boa música, pele e poesia. Revivi todo o exagero de intensidade, como em um momento tudo que eu mais desejava era cobri-lo de agrados, e no segundo seguinte eu considerava a possibilidade de estrangulá-lo com a mangueira do jardim.
E foi aí que eu percebi, não foi você. Foi apenas tudo que você representou para mim, naquela época de desencontros. Você foi meu sol particular, foi meu mundo inteiro. Foi tudo que eu sempre quis e o que mais temi. Você foi meu espelho, meu reflexo; eu pude enxergar minhas impressões em seus contornos, suas linhas. Foi minha dose de sanidade quando tudo estava fora de órbita. Eu costumava não enxergar, e essa cegueira me levou a não olhar para fora. E, por não olhar para fora, logo me acostumei a não abrir de todo as janelas. E, por não abrir as janelas, me acostumei a viver no escuro. E aí esqueci como é sentir a luz, e você trouxe isso de volta. E me trouxe de volta ao lugar ao qual sempre pertenci, mas havia me esquecido disso.
Algumas coisas vão permanecer – o cheiro, o timbre, o toque. Você sabe que eu tenho essa coisa de pele, não consigo me desfazer. Posso guardar algumas camisas? Gosto delas. Sinto-me mais eu. Sempre fui mais eu com você. Acho que descobri um novo eu.
Não me leve a mal. Só quero fazê-lo tão feliz quanto você me fez, e acredite, a melhor forma de retribuição é a liberdade. Se eu não consigo aprender a não devorá-lo e você não consegue aprender a não me sufocar, é hora de partir. Antes que só sobre respeito. É muito triste quando a admiração e o encanto acabam, tendemos a apagar tantas boas recordações para nos curarmos enquanto o tempo não se encarrega de nos recompor. E não quero apagar nada, quero conservar seus sorrisos e seus resmungos. Quero por completo.
Não sei ao certo como vou deixar você partir, como os pais que criam os filhos para o mundo. Vou querer sempre mais.
Mais do mesmo.
Mas dói mesmo.
Acho adeus uma palavra deprimente e carregada de negativismo. Então, acho que vou usar ‘‘até breve’’. Se é a melhor forma de encerrar, não sei dizer. Se existe outro jeito, eu prefiro assim.
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